domingo, 28 de maio de 2017

“Ain! Você só fala de política!”

Como passar um dia inteiro discutindo se Taís Araújo deveria ou não ter aceitado a abóbora oferecida por Ana Maria Braga (a atriz detesta o fruto da aboboreira), enquanto ainda há tantos trabalhadores país afora – iludidos pela propaganda do “governo” e da mídia corporativa – defendendo reformas que só interessam a seus patrões? enquanto ainda há tantos assalariados ignorando o simples fato de que menos salário e benefícios para o empregado significa tão somente mais lucro para o empregador?

Como passar um dia inteiro discutindo se quem possui um cãozinho de estimação também tem o direito de comemorar o Dia das Mães, enquanto “cidadãos de bem” aplaudem o prefeito da maior cidade da América do Sul (que já invadiu terreno público e o anexou a propriedade sua) por desalojar de ruínas abandonadas dependentes químicos, fechar estabelecimentos comerciais e impedir que os donos retirem de lá seus pertences e produtos – ações truculentas e espetaculares que repetem antigas ações truculentas e espetaculares que só resultaram em novas cracolândias?

Como passar um dia inteiro discutindo se Fulaneide ou Beltranílson vão deixar a casa mais vigiada do Brasil (não estou falando do Alvorada), enquanto parte considerável da população vê numa intervenção militar a solução para a crise política que a nação atravessa, como se a História já não tivesse mostrado que recorrer a atalhos antidemocráticos – especialmente pavimentados pelas Forças Armadas – invariavelmente termina em repressão ao pensamento divergente, em censura à imprensa e às artes, em tortura (inclusive física) de pessoas, além de – xeu te contar um segredo – não acabar com a famigerada corrupção?

Como passar um dia inteiro discutindo se a falta foi dentro ou fora da área, enquanto a amiga dos tempos de colégio (particular) insiste que negros não deixam as favelas, não ocupam mais cargos de chefia ou não têm tantos papéis principais na tevê porque não se esforçam o suficiente? enquanto o colega dos tempos de curso de inglês (e excursão à Disney) não enxerga que o ponto de partida é “ligeiramente” mais atrás quando você vive num lugar abandonado pelo Estado e dominado por bandidos, quando você estuda em escolas nas quais falta até papel higiênico, quando você é seguido pelo segurança – só por causa da cor da pele – assim que entra nas Lojas Americanas?

Como passar um dia inteiro discutindo se o vestido é branco e dourado ou azul e preto, enquanto o vizinho desperdiça todo o seu choro e ranger de dentes com a vidraça estilhaçada de um banco – banco, aliás, que não só continua batendo recordes de lucro apesar da recessão econômica, como ainda vê perdoada uma dívida de bilhões com a Receita Federal – e, ao mesmo tempo, ignora os seres humanos que têm sua vida estilhaçada por um sistema econômico que prioriza as coisas e despreza os corpos?

Como passar um dia inteiro discutindo se o coala é mais fofo do que o panda, enquanto a justiça (com minúscula mesmo) condena quem rouba ovos de Páscoa e absolve quem lava e evade milhões? enquanto temas como identidade de gênero e orientação sexual são retirados dos currículos escolares? enquanto se cancela a gratuidade no transporte público para milhares de estudantes? enquanto são fechadas centenas de farmácias que disponibilizam medicamentos mais baratos aos cidadãos de baixa renda? enquanto se cogita pagar o trabalhador rural não mais com salário, mas com casa e comida? enquanto servidores de uma das principais universidades do país e funcionários do Teatro Municipal da #CidadeOlímpica continuam sem receber salários em dia? enquanto cresce o número de moradores de rua nas esquinas brasileiras? enquanto testemunhamos os mais vulneráveis pagarem a conta de uma crise sobre a qual eles não têm responsabilidade? enquanto a democracia – que não existe sem POVO, e não sem “ordem”, como afirmou certo “ministro” – escorre pelos ralos da barbárie capitalista?

Como?...

domingo, 21 de maio de 2017

Animais carnívoros

Se as últimas delações serviram para alguma coisa até agora, foi pôr fim à lenda urbana e rural de que a Friboi é do filho do Lula. Ficou claro que quem manda no país, digo, na companhia é a dupla Joesley e Wesley – assim como ficou claro que o sertanejo nutella, vulgo “universitário”, envenenou os ouvidos brasileiros de tal modo que eles passaram a acreditar em todo tipo de lorotas, até nas que não são contadas no Jornal Nacional.

Outro mito derrubado é o de que bilionários se fazem apenas com trabalho duro e despertador programado para tocar às cinco. Calma, friboizetes: ninguém duvida de que os irmãos Batista tenham seus méritos. Ninguém duvida de que tenham se empenhado em estudar o mercado e buscar oportunidades de lucro. Ninguém duvida de que trocaram inúmeras noites em suas camas quentinhas por madrugadas no frigorífico para se tornarem donos da maior produtora de carne do planeta.

Ao mesmo tempo, porém, não dá para duvidar de que os manos só acumularam tantos bilhões graças ao auxílio generoso do Estado brasileiro. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) emprestou milhões à JBS para que adquirisse concorrentes, incrementasse sua expansão internacional e se tornasse a multinacional que é hoje. Se não fosse esse Carne Sem Fronteiras, nem saberíamos quem são Joesley e Wesley – ainda estaríamos falando de Maiara e Maraísa.

O noticiário da semana contou e recontou esse case de sucesso do capitalismo de compadrio – aquele em que o êxito do negócio depende das estreitas relações entre empresários que financiam campanhas eleitorais e políticos que legislam a favor de seus patrocinadores – como se estivesse diante da última picanha do churrasco; quase como se essa fosse uma prática inventada pelos governos petistas e materializada por Temer no já célebre encontro com Joesley no Jaburu, em que o ex-deputado Eduardo Cunha aparentemente era (tem gosto pra tudo) o prato principal.

Chega a ser um deboche uma das empresas que mais se beneficiaram da intimidade com o Estado para se tornar a número um em seu ramo no Brasil (e a número dois ou três no mundo) criticar quaisquer relações nebulosas entre iniciativa privada e poder público. Quem foi além do sumário nos livros de História sabe que a Globo apoiou o regime militar a ponto de, no dia seguinte ao golpe, em 2 de abril de 1964, celebrar em seu diário de papel o restabelecimento da... democracia. A lua de mel entre Marinhos e milicos se estendeu por tanto tempo que, oito anos depois, o então presidente Emílio Garrastazu Médici afirmou que se sentia feliz ao ver no telejornal apresentado por Cid Moreira que “o mundo estava um caos, mas o Brasil estava em paz”.

É óbvio que tanto plim-plim rendeu muito dindim: que veio na forma da instalação de um sistema nacional de torres de televisão bancada pelo governo; da associação entre a emissora carioca e emissoras espalhadas pelo país, muitas delas pertencentes a políticos locais aliados dos militares; de linhas de crédito para qualquer cidadão comprar um aparelho de tevê sem juros. Até um concorrente poderoso – a TV Excelsior, cujo proprietário apoiava abertamente o presidente João Goulart, deposto pelas Forças Armadas – passou a sofrer retaliações financeiras e fechou as portas.

Era a chuva de arroz perfeita: de um lado, os generais querendo uma rede de comunicação que atingisse o país inteiro e ajudasse a livrá-lo da “ameaça comunista” (também conhecida como “todo pensamento que estimulasse desejo de justiça social”); de outro, um grupo empresarial disposto a fazer os acordos que fossem necessários para alcançar o topo da cadeia alimentar.

Qualquer semelhança com as tenebrosas alianças entre agentes públicos e privados flagradas recentemente não é mera coincidência.

Então cuidado quando ouvir por aí que aquele sujeito na capa da Época Negócios se deu bem na vida só porque se esforçou mais do que você; ou que a solução para uma crise política como a atual não passa por eleições diretas e, portanto, pela participação popular: a carne no espeto – prestes a ser devorada – pode ser a sua.

domingo, 14 de maio de 2017

Mãe,

Mãe, acorda.
Mãe, desamarrou.
Mãe, não alcanço.
Mãe, empurra.
Mãe, segura. Mãe, me segura.
Mãe, me ajuda.
Mãe, quero mais. Mãe, quero mais não.
Mãe, já escovei.
Mãe, é a sua vez.
Mãe, machucou.
Mãe, dói.
Mãe, aperta.
Mãe, devagar.
Mãe, arde.
Mãe, assopra.
Falei, mãe, falei com as visitas.
Mãe, eu juro, eu prometo, eu não faço mais isso.
Mãe, me escuta. Mãe, tô escutando.
Já, mãe, já tomei o remédio.
Já, mãe, já fechei a janela.
Mãe, estudei.
Mãe, passei.
Mãe, não consegui.
Mãe, dá outra chance.
Mãe, como faz?
Mas, mãe, por quê?
Mãe, fica.
Mãe, me deixa.
Mãe, espera. Mãe, precisa esperar não.
Mãe, ficou bom?
Mãe, menos.
Mãe, o presente.
Mãe, amei.
Mãe, odiei.
Mãe, surpresa!
Mãe, gostou?
Mãe, olha. Mãe, não olha. Mãe, tá todo mundo olhando.
Usei, mãe, usei.
Mãe, não conta nada pro papai.
Mãe, deu certo. Mãe, deu tudo errado.
Mãe, me erra. Mãe, cê tava certa.
Sei, mãe, o casaco. O guarda-chuva. O filtro solar. Os documentos.
Mãe, funcionou.
Mãe, bem que você dizia.
Agradeci, mãe, agradeci.
Mãe, respira.
Mãe, relaxa.
Mãe, confia em mim.
Mãe, esquece. Mãe, esqueci.
Mãe, me lembra.
Mãe, me desculpa.
Mãe, eu sei me virar. Mãe, não sei virar a massa.
Mãe, me ensina.
Mãe, te ajudo.
Mãe, tem cena pós-créditos.
Mãe, só hoje é a terceira montanha-russa.
Mãe, já leu o texto da Martha? Li, mãe, o texto da Martha.
Mãe, desliga. Mãe, se liga.
Mãe, é mais pra esquerda.
Mãe, te ensino.
Mãe, presta atenção.
Mãe, conectou? Então clica, mãe, então clica.
Mãe, vai descansar.
Mãe, eu alcanço.
Mãe, eu empurro.
Mãe, eu seguro.
O remédio, mãe, tomou?
A janela, mãe, fechou?
Mãe, tá uma delícia.
Mãe, tá muito salgado.
Mãe, eu detesto azeitonas. Desde quando? Desde sempre.
Mãe, obrigado.
Mãe, feliz Dia das Mães.
Mãe, cabei.

domingo, 7 de maio de 2017

Corações famintos

De um lado, meia dúzia de famílias bem nutridas e fortemente armadas (inclusive de medo). De outro, multidões de famintos jogadas à própria sorte. No meio, um muro.

O leitor exausto do noticiário não precisa se preocupar: não vou falar da crise dos refugiados na Europa, nem do edifício que o pato Donald quer levantar entre os Estados Unidos e o México. Também não vou dar pitaco nas tretas entre os moradores daquele condomínio de luxo e da favela ao lado. O assunto de hoje é um filme de zumbi. Isso: aquele subgênero cinematográfico que mistura gente (quase) morta e apocalipse.

A distopia nunca lembrou tanto a realidade.

Escrito e dirigido por Jonathan Levine – baseado no romance de Isaac Marion –, Meu namorado é um zumbi (Warm bodies, 2013) conta a história de amor proibido entre o morto-vivo R (Nicholas Hoult) e a moça viva Julie (Teresa Palmer). Qualquer semelhança com a famosa peça de Shakespeare não é mera coincidência: até a clássica cena do balcão, em que Romeu vai ao encontro de Julieta – arriscando-se a ser descoberto pelos familiares dela – é aqui ressuscitada.

Pode soar improvável, mas o fato é que a soma das duas tragédias – a que vitimou os apaixonados na obra do Bardo e a que mergulhou o mundo no armagedom – resulta numa das comédias mais românticas a que já assisti. Mérito de um roteiro que, nos minutos iniciais, faz o espectador devorar as vísceras existenciais de R. Por meio de uma bem-humorada narração em off, ouvimos o próprio cadáver dizer o quanto se sente solitário, o quanto quer se aproximar das pessoas, o quanto deseja se conectar a elas – sentimentos que qualquer um de nós já experimentou. Afora o detalhezinhoinho de ele estar morto e o público, vivo, a identificação é imediata.

Amenizam ainda o aroma de carne vencida as canções pop que comentam algumas sequências, como “Hungry heart”, de Bruce Springsteen (o título é autoexplicativo), e “Patience”, dos Guns’n’Roses, cujo verso “If I can’t have you right now, I’ll wait, dear” ecoa o que R pensa enquanto vela o sono de sua amada. Além desses hits – que não estão ali só para vender a trilha na Amazon, mas também para ajudar a contar a história –, tiradas como o “You are hot” dito pela melhor amiga de Julie (ao ver maquiado o frio-mas-galã defunto) contribuem para suavizar o climão de fim dos tempos.

Tantas fofices, porém, não atrapalham aquilo que faz do filme de Levine um digno representante do legado de George A. Romero, cineasta que há quase meio século lançou A noite dos mortos-vivos (Night of the living dead, 1968). Como bom herdeiro dessa tradição, Meu namorado é um zumbi também se alimenta das entranhas de uma narrativa fantástica para digerir a época em que está inserido.

E não só a descrição que abre este texto comprova isso.

É também ilustrativa, nesse sentido, a cena em que R observa centenas de mortos que – por motivos óbvios – não interagem com quem está ao redor. De repente ele sente saudade de quando, no mesmo espaço, observava centenas de vivos que – por motivos de eu-não-largo-meu-smartphone-nem-morto – não interagiam com quem estava ao redor.

Outro vestígio de que estamos diante de uma obra atenta aos temas relevantes de seu tempo é que um dos sintomas de que os finados (spoiler! spoiler!) aos poucos recuperam os batimentos cardíacos tange a comunicação (ou a falta dela): os grunhidos são substituídos paulatinamente por palavras e frases. Quem duvida de que esse elogio à capacidade de se expressar e de se relacionar com o outro – um sinal da reinserção dos zumbis não só na sociedade, mas na própria humanidade – é uma crítica a esta era na qual as pessoas mal se escutam e se entendem, na qual o “diálogo” muitas vezes se resume a uma troca de figurinhas rupestres no WhatsApp?

Ao reunir essas e outras metáforas – como o casaco vermelho de R ou o sangue que se espalha na água após um tiro, ambos provas de vida –, Meu namorado é um zumbi transforma sua hora e meia de horror doce em alegoria de um mundo que, mesmo após uma História de tantos totalitarismos, ainda não se decidiu entre a intolerância e a fraternidade, que insiste em continuar errando nesse entrelugar, como o saguão do aeroporto em que residem vários dos walking deads mostrados no longa.

Sorte do planeta que, no filme, existia alguém para quem cérebro não era apenas sobremesa: um sujeito que preservou a fome de viver – que, ao salvar certa personagem e levá-la até o avião onde morava, implodiu um primeiro muro entre mortos e vivos, decolando ali uma (R)evolução da espécie.

domingo, 30 de abril de 2017

Confira comigo no replay

E finalmente chega o dia em que seu filhote, acostumado a ouvir histórias antes de dormir, cisma com a mais eletrizante ever: a de um elefantinho ameaçado de não participar de um concerto na selva por ter entupido a tromba ao sugar algo. Ai de você se se recusar a contá-la de novo. E de novo. E de novo, de novo, de novo.

Paciência – recomenda uma amiga pós-graduada em infâncias. O que parece sem sentido para o adulto, ela continua, é imprescindível para o desenvolvimento emocional e intelectual da criança. A repetição não só propicia a ligação afetiva dela com o mundo, como também facilita sua aprendizagem. É supernormal, portanto, que pequenas e pequenos queiram escutar uma mesma história mil e uma vezes.

É como se estivessem digerindo (bem) aos poucos um alimento novo.

Essa explicação me fez voltar no tempo; aos anos oitenta, para ser mais preciso. Lembro que, ainda menino, assisti muito – mas muito mesmo – a um filme chamado Santa Claus: a verdadeira história de Papai Noel. O pobre do videocassete era coagido a engolir diariamente aquela gravação de algum Cinema em casa do SBT. Não sei como a fita (e minha mãe, quase sempre comigo) resistiu a tantas sessões.

Também não sei o que eu buscava elaborar dentro de mim que exigia reprise em cima de reprise: que só na ficção velhinhos são imortais? que só no cinema renas voam? que só na fantasia elfos existem? que só em sonho crianças do mundo inteiro, das mais ricas às mais pobres, ganham brinquedos – e brinquedos do mesmíssimo fabricante – na noite de Natal? que só num delírio hollywoodiano megaempresários inescrupulosos como B. Z. (John Lithgow) vivem infelizes para sempre?

Outra pergunta que requer a opinião de um especialista: por que certos repetecos vencem a infância e alcançam a chamada maturidade? Exemplo disso é que até hoje paro o que estiver fazendo quando ouço a musiquinha “Lá vem o Chaves, Chaves, Chaves, todos atentos olhando pra tevê...” – e revejo o mesmo episódio pela enésima vez. Será meu cérebro ainda downloadiando o conceito de bola quadrada?

Ainda hei de achar um doutor que me ajude a encontrar respostas.

Mas respostas não só para minhas obsessões por filmes natalinos e seriados mexicanos – que essas são individuais e inofensivas. O que me joga mesmo no divã, hoje em dia, é tentar entender a razão da crescente tara coletiva em querer pôr no repeat os piores capítulos da História, em querer rebobinar tempos que invariavelmente começaram com intolerância e acabaram em holocausto; tempos sombrios, protagonizados por grandes empreiteiros do ódio, líderes boquirrotos cujos discursos serviram (ainda servem) apenas para cimentar muros entre mulheres e homens, gays e héteros, negros e brancos, não cristãos e cristãos, imigrantes e nativos.

Haverá terapia para os marmanjos que não superaram a fase da repetição e, por isso, teimam em espalhar que vale a pena ver de novo o que de mais nefasto a mente humana já produziu? Ou todos nós seremos obrigados – por causa desses seres birrentos e malcriados – a revisitar tragédias que não merecem remake?

O concerto na selva – de que todo bicho participa, independentemente da espécie – não pode ser cancelado porque um ou outro integrante da manada entupiu a tromba ao aspirar entulhos de preconceito. Que ela seja desobstruída logo e se oxigene de conhecimento, ainda a tempo de a humanidade evitar mais uma repetência.

domingo, 23 de abril de 2017

Nove verdades e uma mentira

1) É. Não resisti. Mas o leitor não se preocupe, que não vou submetê-lo a confissões do tipo “Já fiz a coreografia de ‘Ilariê’, da Xuxa, em frente a uma centena de pessoas”. Resolvi compartilhar verdades incomparavelmente mais relevantes que essa – e infinitamente mais constrangedoras para qualquer um que tente desmenti-las. Vamos a elas.

2) Uma reforma da Previdência que faz a aposentadoria virar um sonho mais distante do que casar com a Beyoncé (ou o George Clooney) e dar a festa num iate à beira do Mediterrâneo não quer de fato salvar a Previdência. Logo o sujeito vai se dar conta de que é melhor não entrar no sistema (e continuar na informalidade) do que começar a pagar por um benefício de que mal usufruirá. Talvez ele até contrate uma previdência privada e faça a alegria de Marcelo Caetano – secretário da Previdência, um dos idealizadores da reforma e membro do conselho de administração da Brasilprev, empresa de previdência privada – ou o gáudio de Arthur Maia – que é relator da reforma na Câmara dos Deputados e recebeu duas doações da Bradesco Vida e Previdência nas eleições de 2014, totalizando 299 mil e 972 reais.

3) Não é a CLT ou a Justiça do Trabalho que dificultam a geração de empregos, como querem nos fazer crer os defensores da reforma trabalhista, cujo objetivo maior é autorizar que o negociado entre patrões e empregados prevaleça sobre as leis vigentes. Se fosse assim, não teríamos experimentado – há míseros três anos – taxas de desemprego que não chegavam a 5%; a CLT e a Justiça do Trabalho estavam no mesmo lugar e não impediam as contratações. O que impossibilita a criação de vagas é a falta de demanda. E a demanda só vai desfaltar quando o povo tiver dinheiro no bolso novamente – o que nos leva à próxima verdade.

4) A terceirização sem restrições do mercado de trabalho (inclusive das chamadas atividades-fim, isto é, os professores numa escola ou os médicos num hospital) apenas diminui o poder aquisitivo da população. Vários estudos sobre o tema mostram que os funcionários terceirizados ganham, em média, 24% menos que os formais, mesmo trabalhando, em média, três horas a mais. Como é possível uma economia voltar a crescer se as pessoas empobrecem e limitam seu consumo?

5) O patrão não passa a contratar mais porque o empregado custa menos. Caso a fila do Méquidônis não espiche – e a procura por mais hambúrgueres não o pressione a admitir mais cozinheiros e atendentes –, ele vai tão somente embolsar o dinheiro a mais, fruto dos encargos trabalhistas a menos. Se não fosse desse jeito, grandes empresas teriam investido os recursos de inúmeras isenções fiscais na contratação de mão de obra. Como o consumo não crescia, optaram sabiamente por guardar a grana extra e aumentar o lucro. Os governos (federal e estaduais), por sua vez, perderam a receita desses impostos, o que agravou a crise fiscal.

6) É muitíssimo injusto exigir que a conta dessa crise seja paga pelos mais vulneráveis. Em vez de fechar Farmácias Populares, sucatear universidades, mexer na aposentadoria de quem vive no campo ou retirar direitos de assalariados que ganham dois ou três mínimos, um governo comprometido com quem o elegeu (e não com quem o patrocinou) proporia uma reforma tributária que taxasse fortunas e cobrasse impostos sobre lucros e dividendos; uma reforma que incidisse mais sobre o patrimônio, menos sobre o consumo. É indispensável aumentar a receita? Claro, mas não (só) à custa dos pobres e da classe média. É fundamental, enfim, transformar o dinheiro arrecadado em investimentos (que geram empregos) e amparo social a quem mais precisa.

7) Não há dúvida de que alcançamos tamanha instabilidade política graças (também) à corrupção. Mas paremos com essa história com agá minúsculo de que ela (a corrupção) começou ontem, ou de que é o maior esquema de todos os tempos do mundo judaico-cristão-ocidental (e top três se incluirmos o resto da Via Láctea). Cinco minutos de Google e você descobre que a corrupção é mais antiga nesta terra do que os versos de Gregório de Matos sobre o assunto; que o flerte entre empreiteiras e políticos vem de quando Brasília não passava de um pesadelo na cachola do Niemeyer; que a lua de mel entre elas e eles aconteceu no regime militar, período em que delação não diminuía a quantidade de anos na cadeia, mas a de choques elétricos e afogamentos no porão. O grupo que assumiu o poder em 2003 apenas renovou – o que não o exime de responsabilidade, é óbvio – os contratos senhoriais assinados aqui há gerações.

8) Ilusão acreditar que a solução para nossos problemas esteja fora da democracia ou da política. Se o candidato a qualquer cargo público se referir à ditadura verde-oliva como época em que unicórnios alados sobrevoavam plantações de marshmallows coloridos, basta reler o item sete para tirar os cavalinhos dessa chuva lisérgica. Já se o candidato afirmar que não é político, pode descartá-lo também – porque já mentiu antes mesmo de prometer congelar o preço da passagem. Está lá no Houaiss: político é quem “exerce ou luta por ter influência administrativa em níveis federal, estadual, municipal”. Portanto, a criatura pode ter sido a vida inteira CEO de quermesses para empresários. Virou candidato a prefeito, senador, presidente? É político, sim. Nem adianta se disfarçar de gari ou jardineiro – que a política salta ainda mais aos olhos quando em contato com a demagogia.

9) Foi (e a cada dia é mais) golpe.

10) É tudo verdade o que você viu ontem à noite no jornal.

domingo, 16 de abril de 2017

Invisíveis

Recentemente, assisti a uma reportagem do Jornal Nacional sobre como “a preocupação com a segurança está mexendo com os hábitos e pesando no bolso dos brasileiros”. Até aí nada de mais, a não ser o fato de um simpatizante da Aliança Rebelde como eu ainda dar audiência (mesmo que eventualmente) ao noticiário oficial do Império Galático.

Sabe o ditado popular que diz “os amigos a gente mantém perto; os inimigos, mais ainda”? Então. Mais ou menos por aí.

Mas vamos à matéria, que continuo ruminando semanas depois de ter ido ao ar: os repórteres percorreram a cidade de São Paulo (só as ruas de arranha-céus espelhados, é bom frisar) e entrevistaram um corretor e uma corretora de seguros, além de um consultor financeiro – todos brancos. Os três já haviam sido vítimas da violência urbana: o corretor teve roubados objetos que estavam dentro de seu carro; a corretora, por sua vez, foi surpreendida por um sujeito com um caco de vidro quando dirigia seu carro; já o consultor, ao estacionar (adivinhem) seu carro, foi abordado por um motociclista e acabou com uma arma apontada para a cabeça. Observação sobre o último entrevistado: ele chegou a dizer que estava à procura de um modelo blindado; lamentou, porém, que fosse 30, 40% mais caro que o normal.

Se você leu essa descrição atentamente e não entendeu o motivo de tanta ruminação, precisa já rever seus conceitos.

Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil não percorrer periferias, subúrbios, favelas, se é nesses espaços que acontece a maioria dos homicídios dolosos ou por balas (nem sempre) perdidas? Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil não entrevistar quem mora nesses lugares (a população mais pobre e vulnerável)? Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil não visitar o Nordeste, região onde se registra a maior taxa de mortes violentas para cada cem mil habitantes? Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil não ouvir jovens negros, cujas chances de serem assassinados são 147% maiores do que de jovens de outros grupos étnicos? Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil não escutar policiais – que, se por um lado são os que mais matam no mundo, por outro estão entre os que mais morrem?

Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil ignorar o próprio Brasil?

Aos neurônios mais desatentos, a matéria passa a ideia de que só as pessoas brancas, só a classe média, só os donos de automóvel sentem medo e são vítimas da violência em nosso país. Mas será que o Amarildo, a Claudia, o DG, a Maria Eduarda e tantos outros também não sentiram medo antes de serem desaparecidos, arrastados ou alvejados pelas probabilidades? Será que essa gente – que não tem o perfil dos entrevistados padrão-Globo-de-qualidade – não merece a empatia de quem está diante da tevê? Não merece uma vida blindada contra a incerteza de voltar para casa?

E-mails (e zaps e torpedos e cartas e sinais de fumaça) para a redação chefiada por William Bonner.

domingo, 9 de abril de 2017

Onde mulheres caratecas nocauteiam marmanjos atrevidos todos os dias

Poucas coisas na vida me fizeram sentir tanta vergonha dos meus colegas de gênero quanto os movimentos #MachosUnidos e #ForçaZéMayer, que surgiram nas redes sociais em solidariedade ao ator que reconheceu ter assediado a figurinista Susllen Tonani. Uma dessas coisas certamente foi o diálogo que me vi intimado a travar – e do qual reproduzo os melhores piores momentos ­– com um amigo de um amigo de um amigo no Facebook, dias atrás.

Só peço que não tirem as crianças da sala – que elas têm de ser educadas desde o útero sobre a machocracia que ainda submete as mulheres a todo tipo de violência.

“Chega de mimimi. Que as mulheres conquistem seu espaço, mas que isso não transforme todos os homens em estupradores e agressores.”

Deixe que eu lhe explique a frase “Os homens são machistas”: essa generalização é só uma forma de mostrar que o machismo não é exceção, algo que um ou outro amiguinho nosso pratica de vez em quando (tão raramente quanto lavar a louça ou ir à reunião na escola); serve apenas para reforçar a ideia de que a supremacia masculina é regra, tem caráter histórico e se estrutura numa relação de desigualdade socialmente aceita e tão naturalizada, que usuários de cueca (como nós) muitas vezes nem percebem. Mas pode dormir tranquilo e com a luz apagada – que o feminismo é capaz de ver os cinquenta tons de cinza (e vermelho e amarelo e azul e verde) que você não enxerga nem numa reles sentença.

“Esses ismos me preocupam. A sociedade está indo na direção oposta ao ideal de igualdade. O que falta as mulheres conquistarem?”

Quer que eu desenhe? Que tal igualdade salarial? Em média, elas recebem 25,6% menos do que os homens, ainda que desempenhem as mesmas funções e tenham a mesma formação educacional. Que tal uma divisão justa da jornada de trabalho? Elas costumam trabalhar 7,5 horas a mais por semana, já que assumem a maior parte dos afazeres domésticos. Que tal mais representatividade? Dê uma olhada no Congresso Nacional, nas assembleias legislativas, nas câmaras municipais: as mulheres mal ocupam 10% das cadeiras. Nossos números são inferiores (cuidado para não desfalecer) aos do Oriente Médio, que tem uma taxa de participação feminina de 16%.

“Cadê a delegacia para tratar homens agredidos por esposas? Quais os direitos que nós temos que nos protegem dos ataques diários que sofremos por parte das mulheres?”

Suas reivindicações de macho-alvo fazem parecer 1) que maridos, namorados, peguetes e afins são regularmente submetidos a maus-tratos pela vil ditadura do matriarcado e 2) que uma delegacia só para mulheres é um privilégio. Não é. Estamos num país em que, a cada onze minutos, uma mulher sofre algum tipo de violência. Mulheres são agredidas e assassinadas por serem mulheres (assim como homossexuais são agredidos e assassinados por serem homossexuais). Homens não são agredidos e assassinados por serem homens (assim como héteros não são agredidos e assassinados por serem héteros). Homens podem ser agredidos e assassinados por serem negros, mas aí já é um outro crime (chama racismo, ouviu falar?). Vou lhe contar uma historinha que ilustra bem a sociedade em que vivemos: certa vez, perguntei a um grupo relativamente grande de pessoas quem ali tinha medo de pegar um táxi sozinho à noite. Só as mulheres levantaram a mão.

“O que eu sei é que elas têm dezenas de defensores porque são vistas como sexo frágil. Tenho uma amiga que é taxista e costuma viajar na madrugada, de um estado para o outro, com desconhecidos. Ela faz musculação, é faixa preta em caratê, treinou jiu-jitsu e já nocauteou marmanjo atrevido que se meteu a besta com ela. Não teme bandido.”

(Eu que fui às cordas depois dessa. Como já era tarde, só tive forças para balbuciar uma derradeira resposta, antes de me desconectar e correr para o travesseiro:)

Ainda hei de conhecer esse recanto exótico do nosso Brasil – onde mulheres caratecas nocauteiam marmanjos “atrevidos” todos os dias. Fica em alguma esquina do Projac?

domingo, 2 de abril de 2017

Feitiço do tempo

Vai parecer estranho o que vou falar, mas: se você ainda não assistiu ao novo A Bela e a Fera, pare já a leitura, que vai ter muito spoiler. “Ah, mas eu vi o desenho quando era criança”, você dirá. Eu também: umas noventa e seis vezes. E mesmo assim, acredite, saí do cinema surpreso com o remake estrelado por Emma Watson.

Dirigido por Bill Condon, o filme até lembra uma versão estendida da animação de vinte e tantos anos atrás. Estão lá os mesmos personagens, a mesma história de amor, os mesmos números musicais (“Be our guest”, ufa, faz jus ao original), às vezes os mesmos diálogos e os mesmos movimentos de câmera – com as adaptações necessárias a um longa em live-action.

Verdade que Bela (Watson) agora não é só a mocinha apaixonada por livros, mas também a inventora da máquina de lavar roupa e uma professora disposta a doutrinar menores ao lhes ensinar o subversivo ato da leitura. Outra verdade é que a Fera (Dan Stevens) agora tem uma canção para chamar de sua (“Evermore”) e uivar à vontade, feito certo mascarado que vive a quilômetros dali, sob um teatro em Paris.

Com exceções como essas, continua então tudo igual naquela aldeia? Quase. O roteiro, escrito por Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos, não está na mesma paz.

Embora visualmente seja uma reimaginação pouco ousada, esse A Bela e a Fera torna a narrativa original mais complexa e, portanto, mais instigante ao incluir Villeneuve – o vilarejo em que moram Bela e seu pai, Maurice (Kevin Kline) – no feitiço que transforma o príncipe em monstro, joga seu castelo num permanente inverno e reduz seus criados a móveis e utensílios domésticos.

Não é merchan social sobre Alzheimer o senhorzinho que, logo nos minutos iniciais, devolve a Bela um “acredito que sim, só não lembro o quê”, ao ser indagado se perdeu algo. Não é sinal (apenas) de desinteresse dos locais pelas letras que a única bibliotecazinha da cidade tenha sempre os mesmos títulos na prateleira (isso já acontecia no filme dos anos noventa, mas aqui o fato de o lugar aparentemente jamais renovar sua coleção ganha significado extra). Não é mero déjà vu a impressão de já-estive-aqui tida por alguns moradores de Villeneuve ao invadirem o palácio da Fera.

O roteiro é hábil ao espalhar pistas de que a vila segue bela-adormecida num looping temporal (enquanto caem as pétalas da rosa mágica e permanece a contagem regressiva para o encanto se tornar irreversível). Mais que hábil: é brilhante, ao extrair de elementos que já existiam no desenho – como a canção que sublinhava a provincianice do interior – a matéria-prima para transcender a metáfora do lugarejo-parado-no-tempo, onde os habitantes resistem a mudanças.

Afora Bela e Maurice, que vieram de Paris, estão todos ali condenados a viver “every day like the one before”, e comer todo dia “the same old bread” que o padeiro tem para vender.

Aliada a esse roteiro que expande e ressignifica conceitos da obra original, está a direção cuidadosa de Condon. Ela se destaca na recriação das coreografias com dançarinos de carne e osso (o que já é um baita mérito, por concorrer com as de uma animação, em que qualquer pirueta é possível) e no carinho com que trata, por exemplo, o famoso vestido amarelo – revelado aos poucos, numa reverência ao ícone cinematográfico que se tornou, como o chapéu do Indiana Jones ou a capa do Superman. Outra mostra de apuro é a breve cena em que o Maestro Cadenza (Stanley Tucci) aparece após o fim da maldição: repare em seu sorriso com janelinhas, resultado do uso de algumas teclas como projéteis momentos antes, quando ainda era um cravo e combatia os invasores do castelo.

Tanto esmero com a fantasia não quer dizer, no entanto, desatenção com a realidade. É evidente (e saudável) o esforço da Disney de salpicar o elenco com minorias, como Audra McDonald (a cantora Madame Garderobe) e Ray Fearon (o capelão Père Robert), ambos negros em papéis “comuns”, e não nos tradicionalmente associados à sua cor, como os de empregados. Espaço relevante na telona, porém, quem ganha mesmo é Le Fou (Josh Gad), que agora sai completamente do armário e até arrisca um versinho crítico ao seu amado Gaston (“But I fear the wrong monster’s released”), mostrando que não é desumano como o vilão interpretado por Luke Evans.

Não posso deixar de comentar isso antes de terminar: houve quem sugerisse boicote ao filme por causa da presença de um personagem obviamente gay. Hashtag cansaço. Cá entre nós, se até uma obra que tem o público infantil como um de seus alvos já admite a homossexualidade e sua pessoa não, talvez você seja um daqueles camponeses fadados ao Dia da Marmota. Quantas rosas ainda vão precisar perder as pétalas até que seus neurônios saiam desse looping temporal, ô fera?

domingo, 26 de março de 2017

Em família

Me lembro bem de que, nas últimas eleições para presidente, uma conhecida defendeu seu voto em Aécio Neves com o argumento (?!) de que, ao vencer o pleito, o senador mineiro teria a oportunidade de cumprir o mandato que o avô dele, Tancredo, não conseguiu nem iniciar porque morreu na véspera da posse.

O sangue comove mesmo o brasileiro. Não é à toa que teste de paternidade e reencontro de parentes ao som de trilha cafona ainda fazem tanto sucesso na tevê.

Até me surpreendi com a cara feia da tal opinião pública quando o prefeito Marcelo Crivella tentou colocar o Marcelinho como secretário da Casa Civil carioca. Onde se enxergou tanto nepotismo, não era possível apertar os olhos e enxergar um pai ajudando o filho a superar o drama do desemprego? Uma tremenda injustiça o Supremo ter suspendido a nomeação – o mesmo Supremo que não viu problema quando o gato de estimação do vice golpista (o Angorá) ganhou ministério e foro privilegiado.

Que tribunal é esse que ampara os bichos e desampara os homens?

E não estamos falando de quaisquer homens, mas de brasileiros que servem a pátria há inúmeras gerações. Veja os Magalhães na Bahia, que, se não me engano, licitaram a lavagem inaugural das escadarias do Bonfim para receber a comitiva de Cabral, recém-chegada de Lisboa. Veja também os Bornhausen em Santa Catarina, que, se a memória não me trai, organizaram a primeira chopada de que se tem notícia em Blumenau, e que inspiraria, décadas mais tarde, a criação da Oktoberfest.

Veja ainda os Marinho no Rio, que, se não me falha o Google, usaram a voz bíblica de Cid Moreira para anunciar ao país inteiro que reinava o paraíso sob o regime militar.

De norte a sul, esses e outros (pouquíssimos) clãs regem as vidas de milhões de súditos há mais tempo que Pedro I e Pedro II juntos.

O recorde absoluto, entretanto, pertence à dinastia de José Bonifácio de Andrada e Silva, que ficou conhecido como “patriarca da Independência”. Ela não larga a Coroa desde o período colonial e conta, até hoje, com um representante na Câmara dos Deputados, o tucano Bonifácio de Andrada, no décimo mandato consecutivo. Merecia ou não – porque aposentadoria é para os fracos – o Troféu Reforma da Previdência?

Que os vira-latas de plantão escutem o que vou dizer: nossa república dos bananas é monarquia na veia, de causar inveja à rainha da Inglaterra – Elizabeth II pode até não precisar pagar couvert artístico quando Paul McCartney ou Elton John tocam em suas festas de aniversário, mas também não tem um décimo do poder da realeza canarinha.

Nem a longevidade.

A casta que conduz a nação deve permanecer no trono por muitos e muitos anos, se depender da plebe e da nobreza. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) mostra que a bancada dos parentes na Câmara dos Deputados cresceu nas últimas eleições. Atualmente, os herdeiros ocupam metade das cadeiras. TODOS os parlamentares do Rio Grande do Norte, por exemplo, são familiares de políticos. É ou não é de obstruir as artérias ver tantos laços sanguíneos preservados?

A tradicional família brasileira resiste.

Deixando as ironias e arriscando as metáforas: no livro de História, o Brasil continua no capítulo das capitanias hereditárias. Quantas páginas faltam até o grito do Ipiranga? Mas o grito de fato, ainda preso na garganta das ruas. Não aquele berreiro ensaiado que virou verso do hino nacional e manteve o país umbilicalmente ligado ao passado – como herança transmitida de pai para filho.

domingo, 19 de março de 2017

Ouçam o sociólogo

Estava eu procrastinando no sofá quando topei com o sociólogo Domenico de Masi na tevê. Ele ficou mundialmente famoso ao cunhar a expressão “ócio criativo”.

Falava ao jornalista Roberto D’Ávila sobre a Operação Mãos Limpas e como ela vilanizou a classe política italiana de tal modo, que até os inocentes soçobraram: ter o nome citado numa delação era garantia de vê-lo estampado numa manchete, o que, por sua vez, equivalia a condenação em última instância, sem direito a recurso.

Quem pegasse a entrevista no meio acharia que o assunto era outra operação – aquela que aluga nossas manchetes há pelo menos três anos.

Eu sei: a Lava-Jato à bolonhesa revelou aos italianos o quanto eles afundavam no molho da corrupção. Mas não custa lembrar – e De Masi lembra – que a temporada de caça aos políticos resultou na ascensão de um “não político” à cadeira de primeiro-ministro, o magnata das telecomunicações Silvio Berlusconi, tido como administrador competente por seus eleitores. Talvez eles sonhassem ver o país tão poderoso quanto o Milan (clube de futebol que é propriedade do empresário) dos anos noventa. Não viram.

Logo o conglomerado de empresas do figurão virou alvo de processos por fraudes fiscais, e o próprio milionário foi acusado de comprar apoio de senadores no Parlamento. Ou seja: de um lado, uma das formas mais manjadas de acumular fortuna em qualquer latitude, que é evadir e sonegar (embora a mídia corporativa faça o cidadão comum acreditar que os super-ricos “chegaram lá” porque se esforçaram mais do que ele, acordaram mais cedo etc.); de outro, a... corrupção.

Para completar, Berlusconi ainda se envolveu naquelas polêmicas típicas de quem adora pegar carona nos moralismos do eleitorado: mandou cobrir a nudez de um quadro que enfeitava o palácio do governo, a cópia de uma pintura de Gianbattista Tiepolo (“La verita svelata dal tempo”) na qual uma mulher aparecia com os seios de fora.

O brasileiro que se cuide então: aqui sobra candidato cujos caninos cintilam nas capas das revistas de negócios, mas que é apenas gestor de velhas vampiragens.

Outro tema abordado por De Masi no bate-papo com D’Ávila foram os avanços científicos e tecnológicos das últimas décadas – que, segundo o professor, deveriam ampliar o tempo livre para o ser humano exercitar sua criatividade. Deveriam. Porque ainda há países em que medidas como diminuir os direitos do assalariado e aumentar o número de horas trabalhadas são consideradas pontes para o futuro.

Pouco importa que fábricas na Suécia promovam o bem-estar de seus empregados reduzindo o expediente diário (e por isso vejam crescer significativamente a produtividade e o lucro), ou nações como o Japão comecem a perceber que intermináveis horas extras só incrementam o gráfico de karoshis e karojisatsus (respectivamente, as mortes e suicídios causados por jornadas de trabalho exaustivas).

Enquanto o atual desgoverno brasileiro aposta no slogan “Não pense em crise, trabalhe”, há quem adote o lema “Trabalhe menos e pense”.

De Masi é desses que privilegiam o pensamento. Não por acaso, marcou a segunda alternativa ao ser indagado, no último bloco do programa, sobre qual seria o maior desafio do Brasil no momento: combater a corrupção ou investir em educação. Repetiu ainda o que as estatísticas lhe mostraram: lugares onde existem mais cidadãos com formação universitária – e, portanto, uma cena intelectual mais dinâmica – têm índices menores de violência e maior desenvolvimento econômico. Sublinhou, porém, que o ensino não deve se alicerçar apenas nos nichos voltados para os três is (informatica, inglese e impresa), como tem sido feito na Itália e em outros países cujos dirigentes enxergam a vida como uma edição de O aprendiz. É preciso fortalecer as ciências humanas, afirmou. De acordo com o professor, só uma educação que prioriza a História e as artes protege a sociedade dos autoritarismos e populismos que de tempos em tempos a ameaçam.

Infelizmente, é o avesso disso que vemos hoje por aqui. Contrasta com os avanços registrados nos últimos anos – especialmente o maior acesso ao ensino superior, graças aos campi criados, às cotas e ao financiamento estudantil – o descaso crescente com a universidade pública. Impossível não citar a crise que atravessa a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (a UERJ em que me formei e conheci minha Fernanda): servidores com salários atrasados há meses, estudantes sem bolsas, serviços básicos (como limpeza e conservação) precarizados, bandejão fechado, laboratórios sem luz, hospital universitário com atendimento comprometido por falta de funcionários e materiais etc. etc. etc.

Etc.

Some-se a isso a reforma do Ensino Médio aprovada há algumas semanas, que, diferentemente do que a propaganda anuncia – agora o aluno vai ter “mais liberdade para escolher o que estudar, de acordo com sua vocação” –, dispensa as escolas de oferecer as cinco áreas de concentração, os chamados itinerários formativos: linguagens; matemática; ciências da natureza; ciências humanas e sociais aplicadas; formação técnica e profissional. A nova lei é clara: as instituições não são obrigadas a disponibilizar todos os itinerários, mas, sim, pelo menos um deles. E aí resta a pergunta óbvia (nem precisa ser sociólogo para fazê-la): que “liberdade para escolher” o aluno vai ter se os colégios na sua região oferecerem só uma ou duas opções?

Terá ele a oportunidade de se tornar, quem sabe, um De Masi? Ou lhe será dada somente a chance de trilhar a carreira da mão de obra barata?

Contra tantos retrocessos, o professor sugere pequenas revoluções; a redução da jornada de trabalho e o estímulo à cultura humanista, claro, estão entre elas. A primeira revolução, no entanto, deveria ser ouvir mais gente como ele. Difícil não é. Até o corretor ortográfico do Word – que não é lá a criatura mais brilhante do mundo – passou o texto inteiro tentando me convencer a trocar De Masi por De Mais.

Alguma coisa ele escutou.

domingo, 12 de março de 2017

Dançando no escuro

Um dos raros momentos em que o protagonista de Moonlight (Chiron) parece à vontade consigo mesmo e com o mundo é na aula de dança, na escola. Diante de um espelho enorme – e, aparentemente, nem aí para as crianças que dividem a sala com ele –, o menino sacode o corpo como se o ar (e a vida) não oferecesse resistência.

Negro, pobre, gay, criado apenas pela mãe (que se droga e se prostitui) no subúrbio de Miami, o jovem – interpretado por Alex R. Hibbert na infância, Ashton Sanders na adolescência e Trevante Rhodes na fase adulta – tem uma extensa lista de motivos para se sentir marginalizado e se esconder numa casa escura e abandonada ao fugir dos colegas que o perseguem, no começo do filme.

É particularmente bonita (pois metafórica) a cena em que ele é resgatado de lá por aquele que virá a ser o pai que nunca teve: Juan surge arrancando o tapume de uma das janelas, permitindo assim que o sol finalmente incida sobre Chiron. É como se o personagem vivido por Mahershala Ali desse à luz o pequeno – “batizado” mais tarde no mar pelo mesmo Juan em outra cena lindíssima, igualmente inundada de significado.

Uma e outra sequências são marcadas ainda pelo silêncio do garoto, traço tão ensurdecedor de sua personalidade, que atravessa todo o longa. Sua dificuldade em verbalizar os sentimentos vai do instante em que é acolhido por Juan e resiste a falar (até o próprio nome), passa pelo episódio em que apanha de um amigo e atinge o ápice no último ato, quando hesita ao máximo em revelar a certo personagem o quanto este foi (e ainda é) importante para ele.

Tais silêncios ecoam a delicadeza do roteiro e da direção de Barry Jenkins, que jamais se rende aos acordes tentadores do melodrama. Não por acaso o cineasta usa uma simples frase para informar ao espectador que fim levou Juan, dispensando dessa maneira uma cena que, nas mãos de um diretor menos sutil, elevaria os decibéis de glicose a níveis estridentes. Da mesma forma, em outra passagem capital da trajetória de Chiron, o mar e a mão que roçam a areia são suficientes para que a plateia escute o alvoroço de sensações experimentado pelo protagonista.

Numa época em que parece ganhar atenção apenas quem fala mais alto (pouco importando o que é falado), traz certo alívio ver um filme como esse – que sussurra o grito de tantos excluídos – vencer um prêmio tão barulhento quanto o Oscar, ainda mais quando o superultramegafavorito da noite é um musical, talvez o gênero que mais berre sua natureza de faz de conta.

Nada contra La La Land, de que também gosto e cujas canções assobio há semanas, mas dar voz à trilha sonora de uma vida que, em outros carnavais, não ganharia os alto-falantes de Hollywood ajuda os ouvidos a reeducarem a própria audição – e a expandirem o repertório de melodias disponíveis na jukebox que toca no peito.

domingo, 5 de março de 2017

Mulheres (ainda) à beira

O goleiro condenado por matar a ex-namorada Eliza Samudio, dar sumiço no cadáver e ainda sequestrar o próprio filho foi solto pelo Supremo Tribunal Federal após cumprir menos de um terço da pena. Nem sete anos. Vai aguardar em liberdade a decisão sobre os recursos impetrados por seu advogado.

Não discuto a legalidade do habeas corpus concedido pelo juiz Marco Aurélio Mello. Nem desejo que um réu fique indefinidamente preso enquanto espera o julgamento na instância seguinte – em primeiro lugar, porque isso é ilegal e desumano; em segundo, porque só contribui para abarrotar ainda mais os já superlotados presídios brasileiros.

Mas me incomoda a brandura da lei diante dos crimes cometidos – brandura que certamente reflete a tolerância com que a sociedade encara a violência contra a mulher.

Pois bastou o sujeito deixar a cadeia para os holofotes o procurarem. De repente importa menos o delito e mais a audiência que o astro pode proporcionar. Agora ele aproveita que é a bola da vez para dar entrevistas e exibir a marca de quem “pagou caro” – palavras dele – pelo “erro” que cometeu. De cabeça empinada (como nos áureos tempos rubro-negros), afirma que não apagaria nada que aconteceu; que nem prisão perpétua traria a vítima de volta; e que só quer recomeçar a carreira. Difícil não vai ser, ainda mais no país do futebol (esporte também conhecido como “coisa de homem”): nove clubes já teriam mostrado interesse em sua contratação. A maioria, no entanto, pediu para não ter o nome revelado. Vergonha pura e simples ou – hipótese absurda, espero – receio de gerar frustração na torcida, caso o jogador não vire reforço?

O clímax são as fotos em que ele aparece ostentando o sorriso ao lado da atual esposa e tirando selfies com fãs (fãs!). A reserva no castelo de Caras já deve ter sido feita.

Se o desdém (não só) midiático pelo assassinato de Eliza – ou por qualquer ato de violência contra qualquer mulher – ainda não tinha ficado claro nessa reestreia do atleta no showbiz, ficou quando o “jornalista” Alexandre Garcia (há décadas no rádio, na tevê e agora na internet) comentou com um inacreditável “E eu com isso?” a notícia de que a atriz Jane Fonda sofrera um estupro na juventude.

A frase – responsável por alçar a criatura ao favoritismo absoluto do troféu Babaca do Ano – gerou manchete, mas não deveria gerar surpresa. Afinal, foi assinada por um senhor que sempre e abertamente apoiou um regime (o militar) célebre por torturar mulheres, com requintes que iam do choque elétrico nos órgãos genitais ao estupro propriamente dito, passando pela proibição de amamentar os filhos, também presos.

E outra: não é de hoje que esse mesmo senhor golfa misoginia nas redes sociais. Recentemente, sentenciou que a palavra “feminicídio” era “invenção de quem pensa que homicídio é matar ‘hômi’”, numa demonstração explícita e debochada de que ignora as razões que levam uma mulher a ser agredida a cada onze minutos no Brasil (ou quatro, como no recém-terminado Carnaval carioca).

Ele não é exceção, infelizmente. Em sua companhia, está o editor que estampou na capa do jornal O Globo, há dois anos, em pleno Oito de Março, charge na qual um terrorista do Estado Islâmico ameaçava decapitar a então presidenta Dilma; está o delegado que sugeriu arquivamento do inquérito contra o político que agrediu a esposa (e era candidato a prefeito do Rio de Janeiro); está o traficante que atirou na parceira porque ela se recusou a transar; está o ministro do Supremo que concedeu habeas corpus ao médico que cometeu dezenas de estupros.

Está aquele um em cada três brasileiros que culpa a mulher que frequenta baile funk ou usa roupas curtas por sofrer violência sexual.

Está, enfim, a corja que só alcançou o poder após dar um golpe na primeira mulher eleita presidenta do Brasil; está o vice que deu posse a um ministério formado apenas por exemplares do sexo masculino, desenhando sem pudores a machocracia que insiste em nos subjugar desde o estupro original, há cinco séculos; está o desgoverno que, ao cortar cargos comissionados (em nome de uma austeridade seletiva, porque em geral só atinge os mais vulneráveis), demitiu mais mulheres do que homens – mesmo sendo superior o número de cadeiras ocupadas por eles.

Às vésperas de mais um Dia Internacional da Mulher, é triste constatar que as filhas deste solo ainda não encontraram a tal mãe gentil.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A Alvissareira

Estou pensando em abrir uma lojinha. Coisa modesta, que eu não sou de querer joalheria favorita de político para ganhar isenção fiscal. A ideia é até trabalhar com joias e outros tesouros, mas não do tipo que orna primeiras-damas. O lugar há de lembrar um daqueles quinquilhódromos que só negociam raridades, como o muquifo onde o senhor Peltzer comprou um mogwai para o filho no Natal ou o cafofo onde Harry Potter foi escolhido por sua varinha.

As relíquias, no entanto, não serão objetos empoeirados de saudade. Não espere encontrar lá o rádio em que a bisa ouvia O direito de nascer, o cuco em que o biso contava as horas para rever o broto, a Olivetti com a qual a vovó datilografava os memorandos ditados pelo chefe, a Caloi com a qual o vovô corria o bairro vendendo sonhos de porta em porta.

Em vez disso, espere encontrar entre as prateleiras – diariamente lustradas com utopia – um smartphone que faz jus ao nome por só receber e enviar notícias verdadeiras e relevantes. Ele vem com um chip que exclui automaticamente textos não assinados (em geral, compartilhados por sites sem expediente), jornalistas declaradamente apaixonados por vices golpistas e manchetes sobre a Bruna Marquezine na fila do pão.

Espere encontrar ainda um relógio que encurta o dia quando o dono tenta encaixar mais uma reunião no escritório, mais um aparelho na musculação, mais uma DR na noite – e que estica as horas quando ele resolve escrever um poema, quando ele vai ao cinema com os filhos, quando ele tira o amor de sua vida para dançar.

Uma seção particularmente especial será a dos teclados inteligentes. Praticamente um Bumblebee doméstico, o equipamento vem com um dicionário na memória que não só corrige qualquer deslize ortográfico no momento da digitação, como também sugere aos seus usuários palavras que eles pouco ou nunca utilizam no dia a dia. Ultimamente, verbetes como “diálogo” e “empatia” têm sido muito recomendados. Outra vantagem dos TIs é que eles têm um dispositivo que trava as teclas sempre que o sujeito decide redigir um textão com conteúdo racista, xenófobo, misógino, homofóbico etc.

Pena que essa tecnologia não estava disponível antes do discurso de posse do Trump.

A Alvissareira ainda terá um espaço para os clientes deixarem suas bicicletas – porque a gerência pretende desestimular o uso do automóvel – e um café com aquelas poltronas tão aconchegantes quanto a casa dos avós aos domingos – onde os amigos poderão esquecer o presente enquanto saboreiam uns futuros polvilhados de açúcar e canela.

Só preciso achar um chef cuja especialidade sejam sonhos.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Retrocesso a jato

Companhias aéreas americanas acabam de criar uma classe inferior à econômica: a econômica básica. Os passageiros que optam por ela só têm direito a uma bagagem de mão, a ser acomodada sob o assento; não podem usar o maleiro superior. Também não podem escolher o lugar. Essas novidades vão na mesma direção da cobrança (por fora) da comida servida a bordo – já comum em alguns países – e da prometida oferta de lugares em pé (!), com a qual se pretende ampliar a venda de tickets por voo. Segundo as empresas, essa segmentação da cabine em subclasses é uma “tendência” que visa “maximizar a receita” e “propiciar grande valor” aos acionistas nos próximos anos.

Do jeito que as coisas estão, não vou me espantar se num futuro próximo inventarem uma tarifa extra para o viajante ter acesso ao banheiro ou à máscara de oxigênio – quiçá ao próprio oxigênio. É assim que funciona um mundo cada vez mais regido pela lógica do lucro, onde governos são patrocinados por corporações (entre elas as companhias de aviação): nele o direito de hoje pode ser o privilégio de amanhã.

Nele não surpreende um jornal de grande circulação – que nada mais é que uma empresa sustentada por outras empresas, os anunciantes – botar aspas na palavra “direitos” ao se referir às férias e ao décimo terceiro, como se ambos fossem privilégios de uma elite e pudessem ser extintos a qualquer momento, sob a alegação de que atrapalham o crescimento econômico porque diminuem a competitividade do país frente a nações cujos trabalhadores não contam com essas “regalias” (minha vez de botar aspas).

Não esqueço o dia em que esse mesmo jornal lembrou que certos países asiáticos conseguiam ser mais competitivos do que os europeus por não terem restrição legal para o número de horas trabalhadas. Provavelmente os donos da publicação ainda estavam sob o efeito do slogan “Online, on time, full time”. Certamente desconheciam o que significa para um francês o flanar, ou para um espanhol a sesta.

Ainda nesse mundo em que leitores são convencidos pelo noticiário de que seus direitos são privilégios, não surpreende uma revista de alcance nacional – igualmente uma empresa sustentada por outras – estampar na capa um septuagenário Mick Jagger e sugerir que continuar trabalhando até a pós-velhice pode ser uma ótima ideia, como se todo brasileiro contasse com a fortuna do inglês ou pudesse escolher quando pendurar a guitarra; e mais, como se todo brasileiro alcançasse os 65 anos que a reforma da Previdência pretende estabelecer como idade mínima para a aposentadoria.

Só um dado: na periferia da cidade de São Paulo, a expectativa de vida em 2015 – em razão da violência e do difícil acesso a leitos hospitalares – não chegava aos sessenta anos. Interpretem.

Interpretem ainda um ministro da Saúde que – num momento de crise econômica, quando deveríamos aumentar a proteção aos mais vulneráveis, e não o contrário – critica o tamanho do Sistema Único de Saúde (SUS) e afirma que os direitos previstos para a área na Constituição são financeiramente insustentáveis. Interpretem também um ministro do Supremo que – nesse mesmo momento de crise, quando, repito, deveríamos aumentar a proteção aos mais vulneráveis – defende a privatização do ensino superior com o argumento de que o Estado não tem mais condições de custear integralmente a educação, devendo priorizar, assim, os níveis fundamental e médio.

Minha humilde interpretação: no orçamento não cabem o SUS (que atende os mais pobres) nem a universidade pública (hoje frequentada por muitos alunos de baixa renda, os cotistas) porque têm de caber, prioritariamente, bilhões de reais para socorrer operadoras de telefonia à beira da falência e reajustar os já altos salários do Judiciário. Ou: é para isso que serve congelar investimentos em saúde e educação por duas décadas – garantir verbas para os amigos empresários e para os colegas magistrados, que hão de interpretar as leis a favor desses e de outros privilegiados de sempre.

Não por acaso, os oito homens mais ricos do planeta concentram o mesmo patrimônio dos 3,6 bilhões mais pobres. A “tendência” seguida não apenas por aquelas companhias aéreas – proteger os acionistas da casa-grande à custa do bem-estar e da segurança de quem viaja na senzala – só ajuda a aprofundar essa desigualdade; e, se não for revertida, vai levar a humanidade ao século passado para repetir, como farsa, uma famosa tragédia – protagonizada não por um avião, mas por um navio que diziam ser inafundável, onde sobrava espaço para os luxos de uma meia dúzia.

E faltava para os botes que salvariam as vidas da maioria.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Oh captain, my captain

Ben Cash (Viggo Mortensen) não quer ver os filhos crescendo num mundo em que felicidade virou sinônimo de “Ganhei o novo iPhone no Natal”, em que ser e consumir passaram a ocupar o mesmo espaço no dicionário. Por isso, cria os seis rebentos na floresta. Lá eles plantam, caçam, malham, fazem escalada, estudam física e filosofia, leem os clássicos e não comemoram a chegada do Papai Noel – preferem celebrar a vinda do Titio Noam à Terra, num sete de dezembro.

Uma família que festeja o aniversário de Chomsky no lugar da data mais comercial do ano merece todo o meu respeito. Diz o bom velhinho que cultuas e te direi quem és: um superpai. Super mesmo, a ponto de o filme escrito e dirigido por Matt Ross ter sido batizado Capitão Fantástico – nome tão stan-lírico, que periga atrair os distraídos ao cinema para conhecer o futuro novo integrante dos Vingadores.

Mas não. O herói aqui não voa nem veste paletó de ferro. É super por tratar seus filhotes como adultos. Nunca esconde a verdade, por mais dura ou embaraçosa que seja. Pode ser o suicídio da mãe deles (o que leva a trupe a deixar seu refúgio), pode ser o significado da palavra estupro, que rende uma cena divertida com a caçula Nai (Charlie Shotwell) graças à maneira direta com que Ben tira as dúvidas da menina. O contraste dos Cash com os primos, criados como se fossem desmanchar no primeiro sopro de realidade, ilustra como muitas vezes retardamos o amadurecimento das crianças – e até as infantilizamos mais – ao cultivar tabus e preconceitos.

Não deve ser coincidência que ainda vague por aí tanto marmanjo incapaz de discutir abertamente determinados assuntos.

Outro poder que faz de Ben um superpai: ele não aceita respostas fáceis. A certa altura, pede a Kielyr (Samantha Isler) que fale sobre o romance que está lendo (Lolita, de Nabokov), e a filha lhe oferece um dos adjetivos mais preguiçosos e vazios que existem: interessante. Resposta errada, bebê. Esqueceu que o vocábulo orna a lista de termos proibidos por ser quase uma não palavra? A mocinha, então, tenta driblar a curiosidade paterna repetindo o que leu. Resposta errada de novo. Papai não quer resumo. Quer uma análise de verdade, com opinião baseada em argumentos. Tanta (saudável) insistência depois, a adolescente enfim deixa a superfície e mergulha na interpretação, revelando, entre outras coisas, que simpatizou com o professor Humbert, embora ele aja como um pedófilo. Por quê? Porque a história é contada a partir do ponto de vista dele.

(Diz aí: não seria bom dividir a mesa com familiares que, educados desde berço, debatessem arte ou política como gente grande e não empacassem no “Discordo”, no “É minha opinião” ou no “Chola mais”?)

Parentes e parênteses à parte, as impressões de Kielyr sobre o livro ecoam o que o espectador vê na telona, num instigante exercício de metalinguagem: até que ponto simpatizamos com o protagonista porque a performance carismática de Mortensen nos leva a isso? não poderíamos igualmente enxergá-lo como um irresponsável que põe em risco a segurança dos filhos ou os priva do direito de frequentar uma escola?

O avô das crianças enxerga o genro exatamente assim. Tanto é que tenta a guarda delas. Justamente por se opor a Ben quanto à criação dos pequenos, Jack (Frank Langella) tinha tudo para ser o Caveira Vermelha do nosso Capitão. Não é. O roteiro que dispensa maniqueísmos e a interpretação do veterano ator desenham o sujeito como alguém realmente preocupado e amoroso com os netos.

A sofisticação do texto escrito por Ross surge ainda em sequências como aquela na qual Rellian (Nicholas Hamilton) começa a tocar percussão e Cash, em vez de reprimir o filho, passa a batucar junto, mostrando sua capacidade de se adaptar a qualquer ritmo – ou circunstância – em prol das crias, numa sugestão discreta do roteiro sobre o desfecho da narrativa.

Outra passagem que sinaliza o cuidado do cineasta com sua obra, agora na direção, traz Ben entoando um discurso resignado, aparentando desistir de certa missão. A fala inteira é dita enquanto o encaramos pelo retrovisor do ônibus que conduz – uma pista elegante de que aquele não é o superpai com o qual já nos acostumamos, mas seu eu invertido. Logo que ele se volta para os filhos, manda às favas o palavrório típico dos conformados e acelera rumo a seu destino.

Um destino que, se por um lado tem a ver com a morte de uma pessoa tão amada, por outro aponta para o nascimento de uma sociedade menos vulnerável à kryptonita do consumo e da alienação, mais atenta a joias (do infinito) como a sustentabilidade e o conhecimento – uma utopia que talvez jamais seja alcançada, mas que um senhor fantástico, capaz de se esticar indefinidamente para abraçar seus descendentes, insiste que eles continuem perseguindo.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Pé na estrada 2

Eu no Camboja, com selva por todos os lados? Não podia ser real. Tive certeza disso quando aquelas raízes imensas sobre o templo de Ta Prohm (Google nele, se você não sabe do que estou falando) começaram a deslizar na minha direção cheias de más intenções e a Lara “Tomb Raider” Croft apareceu para me salvar.

Angelina-Jolie-estende-as-mãos-para-a-sua-pessoa é aquele momento em que você cai do colchão.

Aí percebe que aquele país minúsculo, espremido entre a Tailândia e o Vietnã, não só passou a integrar seu repertório onírico, como ainda virou o milésimo segundo destino obrigatório daquela sua lista de mil e um lugares para conhecer antes do último traslado. Culpa de Martha Medeiros e seu Um lugar na janela 2: relatos de viagem.

Assim como no primeiro volume – igualmente responsável por me fazer acumular milhas durante o sono, e sobre o qual também escrevi –, a gaúcha reúne experiências suas longe de Porto Alegre. Desta vez, o itinerário inclui desde um show dos Rolling Stones no Hyde Park até um retiro em Cascais, passando por uma visitinha a um santuário asiático em que os devotos depositam milhares de pênis de madeira.

Há pacotes para todas as taras.

Mas aqui eles não são tão importantes quanto na vitrine das agências. O que (mais) conta são as personagens em que a autora se transforma a cada viagem: a excursão ao México não tiraria o fôlego sem a aventureira que se arrisca nos subterrâneos de uma reserva florestal; as férias na Sicília não teriam a mesma doçura sem a mamma que resgata da mendicância a filhota mochileira; os dias no Uruguai não seriam tão despojados sem a alma hippie que cruza as ruas de terra batida de Punta del Diablo.

Mais do que descobrir lugares, Martha descobre outras Marthas.

Com a sensibilidade de quem sabe que tocar um chão distante vale mil fotos, mas trocar com os que vivem nele vale o jet lag, elas mostram ao leitor que viajar é uma ótima oportunidade de – mais do que dar férias àquele eu previsível a que a rotina nos reduz – autorizar a decolagem daqueles eus confinados aos lugares-comuns do cotidiano.

Seja com a Martha que degusta a Riviera francesa, seja com a Martha que consome Nova York – mas sempre com a Martha que traduz os cardápios mais sofisticados usando a sintaxe mais simples –, viajar é também ler o outro, é aprender um jeito novo de saudar o tempo, uma forma diferente de vestir o instante, um modo inesperado de temperar as prioridades, um maneira surpreendente de encarar o humano – e com isso exercitar a empatia, expandir o mundo e ampliar perspectivas.

Impossível não desembarcar na última página com a sensação de voltar para casa depois de uma viagem que foi além do descanso e da diversão; de uma viagem cujo excesso de bagagem não pesa nem gera multa: é apenas a certeza de que não somos mais tão turistas de nós mesmos e dos demais hóspedes deste resort chamado Terra.