domingo, 28 de maio de 2017

“Ain! Você só fala de política!”

Como passar um dia inteiro discutindo se Taís Araújo deveria ou não ter aceitado a abóbora oferecida por Ana Maria Braga (a atriz detesta o fruto da aboboreira), enquanto ainda há tantos trabalhadores país afora – iludidos pela propaganda do “governo” e da mídia corporativa – defendendo reformas que só interessam a seus patrões? enquanto ainda há tantos assalariados ignorando o simples fato de que menos salário e benefícios para o empregado significa tão somente mais lucro para o empregador?

Como passar um dia inteiro discutindo se quem possui um cãozinho de estimação também tem o direito de comemorar o Dia das Mães, enquanto “cidadãos de bem” aplaudem o prefeito da maior cidade da América do Sul (que já invadiu terreno público e o anexou a propriedade sua) por desalojar de ruínas abandonadas dependentes químicos, fechar estabelecimentos comerciais e impedir que os donos retirem de lá seus pertences e produtos – ações truculentas e espetaculares que repetem antigas ações truculentas e espetaculares que só resultaram em novas cracolândias?

Como passar um dia inteiro discutindo se Fulaneide ou Beltranílson vão deixar a casa mais vigiada do Brasil (não estou falando do Alvorada), enquanto parte considerável da população vê numa intervenção militar a solução para a crise política que a nação atravessa, como se a História já não tivesse mostrado que recorrer a atalhos antidemocráticos – especialmente pavimentados pelas Forças Armadas – invariavelmente termina em repressão ao pensamento divergente, em censura à imprensa e às artes, em tortura (inclusive física) de pessoas, além de – xeu te contar um segredo – não acabar com a famigerada corrupção?

Como passar um dia inteiro discutindo se a falta foi dentro ou fora da área, enquanto a amiga dos tempos de colégio (particular) insiste que negros não deixam as favelas, não ocupam mais cargos de chefia ou não têm tantos papéis principais na tevê porque não se esforçam o suficiente? enquanto o colega dos tempos de curso de inglês (e excursão à Disney) não enxerga que o ponto de partida é “ligeiramente” mais atrás quando você vive num lugar abandonado pelo Estado e dominado por bandidos, quando você estuda em escolas nas quais falta até papel higiênico, quando você é seguido pelo segurança – só por causa da cor da pele – assim que entra nas Lojas Americanas?

Como passar um dia inteiro discutindo se o vestido é branco e dourado ou azul e preto, enquanto o vizinho desperdiça todo o seu choro e ranger de dentes com a vidraça estilhaçada de um banco – banco, aliás, que não só continua batendo recordes de lucro apesar da recessão econômica, como ainda vê perdoada uma dívida de bilhões com a Receita Federal – e, ao mesmo tempo, ignora os seres humanos que têm sua vida estilhaçada por um sistema econômico que prioriza as coisas e despreza os corpos?

Como passar um dia inteiro discutindo se o coala é mais fofo do que o panda, enquanto a justiça (com minúscula mesmo) condena quem rouba ovos de Páscoa e absolve quem lava e evade milhões? enquanto temas como identidade de gênero e orientação sexual são retirados dos currículos escolares? enquanto se cancela a gratuidade no transporte público para milhares de estudantes? enquanto são fechadas centenas de farmácias que disponibilizam medicamentos mais baratos aos cidadãos de baixa renda? enquanto se cogita pagar o trabalhador rural não mais com salário, mas com casa e comida? enquanto servidores de uma das principais universidades do país e funcionários do Teatro Municipal da #CidadeOlímpica continuam sem receber salários em dia? enquanto cresce o número de moradores de rua nas esquinas brasileiras? enquanto testemunhamos os mais vulneráveis pagarem a conta de uma crise sobre a qual eles não têm responsabilidade? enquanto a democracia – que não existe sem POVO, e não sem “ordem”, como afirmou certo “ministro” – escorre pelos ralos da barbárie capitalista?

Como?...

domingo, 21 de maio de 2017

Animais carnívoros

Se as últimas delações serviram para alguma coisa até agora, foi pôr fim à lenda urbana e rural de que a Friboi é do filho do Lula. Ficou claro que quem manda no país, digo, na companhia é a dupla Joesley e Wesley – assim como ficou claro que o sertanejo nutella, vulgo “universitário”, envenenou os ouvidos brasileiros de tal modo que eles passaram a acreditar em todo tipo de lorotas, até nas que não são contadas no Jornal Nacional.

Outro mito derrubado é o de que bilionários se fazem apenas com trabalho duro e despertador programado para tocar às cinco. Calma, friboizetes: ninguém duvida de que os irmãos Batista tenham seus méritos. Ninguém duvida de que tenham se empenhado em estudar o mercado e buscar oportunidades de lucro. Ninguém duvida de que trocaram inúmeras noites em suas camas quentinhas por madrugadas no frigorífico para se tornarem donos da maior produtora de carne do planeta.

Ao mesmo tempo, porém, não dá para duvidar de que os manos só acumularam tantos bilhões graças ao auxílio generoso do Estado brasileiro. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) emprestou milhões à JBS para que adquirisse concorrentes, incrementasse sua expansão internacional e se tornasse a multinacional que é hoje. Se não fosse esse Carne Sem Fronteiras, nem saberíamos quem são Joesley e Wesley – ainda estaríamos falando de Maiara e Maraísa.

O noticiário da semana contou e recontou esse case de sucesso do capitalismo de compadrio – aquele em que o êxito do negócio depende das estreitas relações entre empresários que financiam campanhas eleitorais e políticos que legislam a favor de seus patrocinadores – como se estivesse diante da última picanha do churrasco; quase como se essa fosse uma prática inventada pelos governos petistas e materializada por Temer no já célebre encontro com Joesley no Jaburu, em que o ex-deputado Eduardo Cunha aparentemente era (tem gosto pra tudo) o prato principal.

Chega a ser um deboche uma das empresas que mais se beneficiaram da intimidade com o Estado para se tornar a número um em seu ramo no Brasil (e a número dois ou três no mundo) criticar quaisquer relações nebulosas entre iniciativa privada e poder público. Quem foi além do sumário nos livros de História sabe que a Globo apoiou o regime militar a ponto de, no dia seguinte ao golpe, em 2 de abril de 1964, celebrar em seu diário de papel o restabelecimento da... democracia. A lua de mel entre Marinhos e milicos se estendeu por tanto tempo que, oito anos depois, o então presidente Emílio Garrastazu Médici afirmou que se sentia feliz ao ver no telejornal apresentado por Cid Moreira que “o mundo estava um caos, mas o Brasil estava em paz”.

É óbvio que tanto plim-plim rendeu muito dindim: que veio na forma da instalação de um sistema nacional de torres de televisão bancada pelo governo; da associação entre a emissora carioca e emissoras espalhadas pelo país, muitas delas pertencentes a políticos locais aliados dos militares; de linhas de crédito para qualquer cidadão comprar um aparelho de tevê sem juros. Até um concorrente poderoso – a TV Excelsior, cujo proprietário apoiava abertamente o presidente João Goulart, deposto pelas Forças Armadas – passou a sofrer retaliações financeiras e fechou as portas.

Era a chuva de arroz perfeita: de um lado, os generais querendo uma rede de comunicação que atingisse o país inteiro e ajudasse a livrá-lo da “ameaça comunista” (também conhecida como “todo pensamento que estimulasse desejo de justiça social”); de outro, um grupo empresarial disposto a fazer os acordos que fossem necessários para alcançar o topo da cadeia alimentar.

Qualquer semelhança com as tenebrosas alianças entre agentes públicos e privados flagradas recentemente não é mera coincidência.

Então cuidado quando ouvir por aí que aquele sujeito na capa da Época Negócios se deu bem na vida só porque se esforçou mais do que você; ou que a solução para uma crise política como a atual não passa por eleições diretas e, portanto, pela participação popular: a carne no espeto – prestes a ser devorada – pode ser a sua.

domingo, 14 de maio de 2017

Mãe,

Mãe, acorda.
Mãe, desamarrou.
Mãe, não alcanço.
Mãe, empurra.
Mãe, segura. Mãe, me segura.
Mãe, me ajuda.
Mãe, quero mais. Mãe, quero mais não.
Mãe, já escovei.
Mãe, é a sua vez.
Mãe, machucou.
Mãe, dói.
Mãe, aperta.
Mãe, devagar.
Mãe, arde.
Mãe, assopra.
Falei, mãe, falei com as visitas.
Mãe, eu juro, eu prometo, eu não faço mais isso.
Mãe, me escuta. Mãe, tô escutando.
Já, mãe, já tomei o remédio.
Já, mãe, já fechei a janela.
Mãe, estudei.
Mãe, passei.
Mãe, não consegui.
Mãe, dá outra chance.
Mãe, como faz?
Mas, mãe, por quê?
Mãe, fica.
Mãe, me deixa.
Mãe, espera. Mãe, precisa esperar não.
Mãe, ficou bom?
Mãe, menos.
Mãe, o presente.
Mãe, amei.
Mãe, odiei.
Mãe, surpresa!
Mãe, gostou?
Mãe, olha. Mãe, não olha. Mãe, tá todo mundo olhando.
Usei, mãe, usei.
Mãe, não conta nada pro papai.
Mãe, deu certo. Mãe, deu tudo errado.
Mãe, me erra. Mãe, cê tava certa.
Sei, mãe, o casaco. O guarda-chuva. O filtro solar. Os documentos.
Mãe, funcionou.
Mãe, bem que você dizia.
Agradeci, mãe, agradeci.
Mãe, respira.
Mãe, relaxa.
Mãe, confia em mim.
Mãe, esquece. Mãe, esqueci.
Mãe, me lembra.
Mãe, me desculpa.
Mãe, eu sei me virar. Mãe, não sei virar a massa.
Mãe, me ensina.
Mãe, te ajudo.
Mãe, tem cena pós-créditos.
Mãe, só hoje é a terceira montanha-russa.
Mãe, já leu o texto da Martha? Li, mãe, o texto da Martha.
Mãe, desliga. Mãe, se liga.
Mãe, é mais pra esquerda.
Mãe, te ensino.
Mãe, presta atenção.
Mãe, conectou? Então clica, mãe, então clica.
Mãe, vai descansar.
Mãe, eu alcanço.
Mãe, eu empurro.
Mãe, eu seguro.
O remédio, mãe, tomou?
A janela, mãe, fechou?
Mãe, tá uma delícia.
Mãe, tá muito salgado.
Mãe, eu detesto azeitonas. Desde quando? Desde sempre.
Mãe, obrigado.
Mãe, feliz Dia das Mães.
Mãe, cabei.

domingo, 7 de maio de 2017

Corações famintos

De um lado, meia dúzia de famílias bem nutridas e fortemente armadas (inclusive de medo). De outro, multidões de famintos jogadas à própria sorte. No meio, um muro.

O leitor exausto do noticiário não precisa se preocupar: não vou falar da crise dos refugiados na Europa, nem do edifício que o pato Donald quer levantar entre os Estados Unidos e o México. Também não vou dar pitaco nas tretas entre os moradores daquele condomínio de luxo e da favela ao lado. O assunto de hoje é um filme de zumbi. Isso: aquele subgênero cinematográfico que mistura gente (quase) morta e apocalipse.

A distopia nunca lembrou tanto a realidade.

Escrito e dirigido por Jonathan Levine – baseado no romance de Isaac Marion –, Meu namorado é um zumbi (Warm bodies, 2013) conta a história de amor proibido entre o morto-vivo R (Nicholas Hoult) e a moça viva Julie (Teresa Palmer). Qualquer semelhança com a famosa peça de Shakespeare não é mera coincidência: até a clássica cena do balcão, em que Romeu vai ao encontro de Julieta – arriscando-se a ser descoberto pelos familiares dela – é aqui ressuscitada.

Pode soar improvável, mas o fato é que a soma das duas tragédias – a que vitimou os apaixonados na obra do Bardo e a que mergulhou o mundo no armagedom – resulta numa das comédias mais românticas a que já assisti. Mérito de um roteiro que, nos minutos iniciais, faz o espectador devorar as vísceras existenciais de R. Por meio de uma bem-humorada narração em off, ouvimos o próprio cadáver dizer o quanto se sente solitário, o quanto quer se aproximar das pessoas, o quanto deseja se conectar a elas – sentimentos que qualquer um de nós já experimentou. Afora o detalhezinhoinho de ele estar morto e o público, vivo, a identificação é imediata.

Amenizam ainda o aroma de carne vencida as canções pop que comentam algumas sequências, como “Hungry heart”, de Bruce Springsteen (o título é autoexplicativo), e “Patience”, dos Guns’n’Roses, cujo verso “If I can’t have you right now, I’ll wait, dear” ecoa o que R pensa enquanto vela o sono de sua amada. Além desses hits – que não estão ali só para vender a trilha na Amazon, mas também para ajudar a contar a história –, tiradas como o “You are hot” dito pela melhor amiga de Julie (ao ver maquiado o frio-mas-galã defunto) contribuem para suavizar o climão de fim dos tempos.

Tantas fofices, porém, não atrapalham aquilo que faz do filme de Levine um digno representante do legado de George A. Romero, cineasta que há quase meio século lançou A noite dos mortos-vivos (Night of the living dead, 1968). Como bom herdeiro dessa tradição, Meu namorado é um zumbi também se alimenta das entranhas de uma narrativa fantástica para digerir a época em que está inserido.

E não só a descrição que abre este texto comprova isso.

É também ilustrativa, nesse sentido, a cena em que R observa centenas de mortos que – por motivos óbvios – não interagem com quem está ao redor. De repente ele sente saudade de quando, no mesmo espaço, observava centenas de vivos que – por motivos de eu-não-largo-meu-smartphone-nem-morto – não interagiam com quem estava ao redor.

Outro vestígio de que estamos diante de uma obra atenta aos temas relevantes de seu tempo é que um dos sintomas de que os finados (spoiler! spoiler!) aos poucos recuperam os batimentos cardíacos tange a comunicação (ou a falta dela): os grunhidos são substituídos paulatinamente por palavras e frases. Quem duvida de que esse elogio à capacidade de se expressar e de se relacionar com o outro – um sinal da reinserção dos zumbis não só na sociedade, mas na própria humanidade – é uma crítica a esta era na qual as pessoas mal se escutam e se entendem, na qual o “diálogo” muitas vezes se resume a uma troca de figurinhas rupestres no WhatsApp?

Ao reunir essas e outras metáforas – como o casaco vermelho de R ou o sangue que se espalha na água após um tiro, ambos provas de vida –, Meu namorado é um zumbi transforma sua hora e meia de horror doce em alegoria de um mundo que, mesmo após uma História de tantos totalitarismos, ainda não se decidiu entre a intolerância e a fraternidade, que insiste em continuar errando nesse entrelugar, como o saguão do aeroporto em que residem vários dos walking deads mostrados no longa.

Sorte do planeta que, no filme, existia alguém para quem cérebro não era apenas sobremesa: um sujeito que preservou a fome de viver – que, ao salvar certa personagem e levá-la até o avião onde morava, implodiu um primeiro muro entre mortos e vivos, decolando ali uma (R)evolução da espécie.

domingo, 30 de abril de 2017

Confira comigo no replay

E finalmente chega o dia em que seu filhote, acostumado a ouvir histórias antes de dormir, cisma com a mais eletrizante ever: a de um elefantinho ameaçado de não participar de um concerto na selva por ter entupido a tromba ao sugar algo. Ai de você se se recusar a contá-la de novo. E de novo. E de novo, de novo, de novo.

Paciência – recomenda uma amiga pós-graduada em infâncias. O que parece sem sentido para o adulto, ela continua, é imprescindível para o desenvolvimento emocional e intelectual da criança. A repetição não só propicia a ligação afetiva dela com o mundo, como também facilita sua aprendizagem. É supernormal, portanto, que pequenas e pequenos queiram escutar uma mesma história mil e uma vezes.

É como se estivessem digerindo (bem) aos poucos um alimento novo.

Essa explicação me fez voltar no tempo; aos anos oitenta, para ser mais preciso. Lembro que, ainda menino, assisti muito – mas muito mesmo – a um filme chamado Santa Claus: a verdadeira história de Papai Noel. O pobre do videocassete era coagido a engolir diariamente aquela gravação de algum Cinema em casa do SBT. Não sei como a fita (e minha mãe, quase sempre comigo) resistiu a tantas sessões.

Também não sei o que eu buscava elaborar dentro de mim que exigia reprise em cima de reprise: que só na ficção velhinhos são imortais? que só no cinema renas voam? que só na fantasia elfos existem? que só em sonho crianças do mundo inteiro, das mais ricas às mais pobres, ganham brinquedos – e brinquedos do mesmíssimo fabricante – na noite de Natal? que só num delírio hollywoodiano megaempresários inescrupulosos como B. Z. (John Lithgow) vivem infelizes para sempre?

Outra pergunta que requer a opinião de um especialista: por que certos repetecos vencem a infância e alcançam a chamada maturidade? Exemplo disso é que até hoje paro o que estiver fazendo quando ouço a musiquinha “Lá vem o Chaves, Chaves, Chaves, todos atentos olhando pra tevê...” – e revejo o mesmo episódio pela enésima vez. Será meu cérebro ainda downloadiando o conceito de bola quadrada?

Ainda hei de achar um doutor que me ajude a encontrar respostas.

Mas respostas não só para minhas obsessões por filmes natalinos e seriados mexicanos – que essas são individuais e inofensivas. O que me joga mesmo no divã, hoje em dia, é tentar entender a razão da crescente tara coletiva em querer pôr no repeat os piores capítulos da História, em querer rebobinar tempos que invariavelmente começaram com intolerância e acabaram em holocausto; tempos sombrios, protagonizados por grandes empreiteiros do ódio, líderes boquirrotos cujos discursos serviram (ainda servem) apenas para cimentar muros entre mulheres e homens, gays e héteros, negros e brancos, não cristãos e cristãos, imigrantes e nativos.

Haverá terapia para os marmanjos que não superaram a fase da repetição e, por isso, teimam em espalhar que vale a pena ver de novo o que de mais nefasto a mente humana já produziu? Ou todos nós seremos obrigados – por causa desses seres birrentos e malcriados – a revisitar tragédias que não merecem remake?

O concerto na selva – de que todo bicho participa, independentemente da espécie – não pode ser cancelado porque um ou outro integrante da manada entupiu a tromba ao aspirar entulhos de preconceito. Que ela seja desobstruída logo e se oxigene de conhecimento, ainda a tempo de a humanidade evitar mais uma repetência.