domingo, 23 de abril de 2017

Nove verdades e uma mentira

1) É. Não resisti. Mas o leitor não se preocupe, que não vou submetê-lo a confissões do tipo “Já fiz a coreografia de ‘Ilariê’, da Xuxa, em frente a uma centena de pessoas”. Resolvi compartilhar verdades incomparavelmente mais relevantes que essa – e infinitamente mais constrangedoras para qualquer um que tente desmenti-las. Vamos a elas.

2) Uma reforma da Previdência que faz a aposentadoria virar um sonho mais distante do que casar com a Beyoncé (ou o George Clooney) e dar a festa num iate à beira do Mediterrâneo não quer de fato salvar a Previdência. Logo o sujeito vai se dar conta de que é melhor não entrar no sistema (e continuar na informalidade) do que começar a pagar por um benefício de que mal usufruirá. Talvez ele até contrate uma previdência privada e faça a alegria de Marcelo Caetano – secretário da Previdência, um dos idealizadores da reforma e membro do conselho de administração da Brasilprev, empresa de previdência privada – ou o gáudio de Arthur Maia – que é relator da reforma na Câmara dos Deputados e recebeu duas doações da Bradesco Vida e Previdência nas eleições de 2014, totalizando 299 mil e 972 reais.

3) Não é a CLT ou a Justiça do Trabalho que dificultam a geração de empregos, como querem nos fazer crer os defensores da reforma trabalhista, cujo objetivo maior é autorizar que o negociado entre patrões e empregados prevaleça sobre as leis vigentes. Se fosse assim, não teríamos experimentado – há míseros três anos – taxas de desemprego que não chegavam a 5%; a CLT e a Justiça do Trabalho estavam no mesmo lugar e não impediam as contratações. O que impossibilita a criação de vagas é a falta de demanda. E a demanda só vai desfaltar quando o povo tiver dinheiro no bolso novamente – o que nos leva à próxima verdade.

4) A terceirização sem restrições do mercado de trabalho (inclusive das chamadas atividades-fim, isto é, os professores numa escola ou os médicos num hospital) apenas diminui o poder aquisitivo da população. Vários estudos sobre o tema mostram que os funcionários terceirizados ganham, em média, 24% menos que os formais, mesmo trabalhando, em média, três horas a mais. Como é possível uma economia voltar a crescer se as pessoas empobrecem e limitam seu consumo?

5) O patrão não passa a contratar mais porque o empregado custa menos. Caso a fila do Méquidônis não espiche – e a procura por mais hambúrgueres não o pressione a admitir mais cozinheiros e atendentes –, ele vai tão somente embolsar o dinheiro a mais, fruto dos encargos trabalhistas a menos. Se não fosse desse jeito, grandes empresas teriam investido os recursos de inúmeras isenções fiscais na contratação de mão de obra. Como o consumo não crescia, optaram sabiamente por guardar a grana extra e aumentar o lucro. Os governos (federal e estaduais), por sua vez, perderam a receita desses impostos, o que agravou a crise fiscal.

6) É muitíssimo injusto exigir que a conta dessa crise seja paga pelos mais vulneráveis. Em vez de fechar Farmácias Populares, sucatear universidades, mexer na aposentadoria de quem vive no campo ou retirar direitos de assalariados que ganham dois ou três mínimos, um governo comprometido com quem o elegeu (e não com quem o patrocinou) proporia uma reforma tributária que taxasse fortunas e cobrasse impostos sobre lucros e dividendos; uma reforma que incidisse mais sobre o patrimônio, menos sobre o consumo. É indispensável aumentar a receita? Claro, mas não (só) à custa dos pobres e da classe média. É fundamental, enfim, transformar o dinheiro arrecadado em investimentos (que geram empregos) e amparo social a quem mais precisa.

7) Não há dúvida de que alcançamos tamanha instabilidade política graças (também) à corrupção. Mas paremos com essa história com agá minúsculo de que ela (a corrupção) começou ontem, ou de que é o maior esquema de todos os tempos do mundo judaico-cristão-ocidental (e top três se incluirmos o resto da Via Láctea). Cinco minutos de Google e você descobre que a corrupção é mais antiga nesta terra do que os versos de Gregório de Matos sobre o assunto; que o flerte entre empreiteiras e políticos vem de quando Brasília não passava de um pesadelo na cachola do Niemeyer; que a lua de mel entre elas e eles aconteceu no regime militar, período em que delação não diminuía a quantidade de anos na cadeia, mas a de choques elétricos e afogamentos no porão. O grupo que assumiu o poder em 2003 apenas renovou – o que não o exime de responsabilidade, é óbvio – os contratos senhoriais assinados aqui há gerações.

8) Ilusão acreditar que a solução para nossos problemas esteja fora da democracia ou da política. Se o candidato a qualquer cargo público se referir à ditadura verde-oliva como época em que unicórnios alados sobrevoavam plantações de marshmallows coloridos, basta reler o item sete para tirar os cavalinhos dessa chuva lisérgica. Já se o candidato afirmar que não é político, pode descartá-lo também – porque já mentiu antes mesmo de prometer congelar o preço da passagem. Está lá no Houaiss: político é quem “exerce ou luta por ter influência administrativa em níveis federal, estadual, municipal”. Portanto, a criatura pode ter sido a vida inteira CEO de quermesses para empresários. Virou candidato a prefeito, senador, presidente? É político, sim. Nem adianta se disfarçar de gari ou jardineiro – que a política salta ainda mais aos olhos quando em contato com a demagogia.

9) Foi (e a cada dia é mais) golpe.

10) É tudo verdade o que você viu ontem à noite no jornal.

domingo, 16 de abril de 2017

Invisíveis

Recentemente, assisti a uma reportagem do Jornal Nacional sobre como “a preocupação com a segurança está mexendo com os hábitos e pesando no bolso dos brasileiros”. Até aí nada de mais, a não ser o fato de um simpatizante da Aliança Rebelde como eu ainda dar audiência (mesmo que eventualmente) ao noticiário oficial do Império Galático.

Sabe o ditado popular que diz “os amigos a gente mantém perto; os inimigos, mais ainda”? Então. Mais ou menos por aí.

Mas vamos à matéria, que continuo ruminando semanas depois de ter ido ao ar: os repórteres percorreram a cidade de São Paulo (só as ruas de arranha-céus espelhados, é bom frisar) e entrevistaram um corretor e uma corretora de seguros, além de um consultor financeiro – todos brancos. Os três já haviam sido vítimas da violência urbana: o corretor teve roubados objetos que estavam dentro de seu carro; a corretora, por sua vez, foi surpreendida por um sujeito com um caco de vidro quando dirigia seu carro; já o consultor, ao estacionar (adivinhem) seu carro, foi abordado por um motociclista e acabou com uma arma apontada para a cabeça. Observação sobre o último entrevistado: ele chegou a dizer que estava à procura de um modelo blindado; lamentou, porém, que fosse 30, 40% mais caro que o normal.

Se você leu essa descrição atentamente e não entendeu o motivo de tanta ruminação, precisa já rever seus conceitos.

Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil não percorrer periferias, subúrbios, favelas, se é nesses espaços que acontece a maioria dos homicídios dolosos ou por balas (nem sempre) perdidas? Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil não entrevistar quem mora nesses lugares (a população mais pobre e vulnerável)? Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil não visitar o Nordeste, região onde se registra a maior taxa de mortes violentas para cada cem mil habitantes? Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil não ouvir jovens negros, cujas chances de serem assassinados são 147% maiores do que de jovens de outros grupos étnicos? Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil não escutar policiais – que, se por um lado são os que mais matam no mundo, por outro estão entre os que mais morrem?

Como pode uma reportagem sobre violência no Brasil ignorar o próprio Brasil?

Aos neurônios mais desatentos, a matéria passa a ideia de que só as pessoas brancas, só a classe média, só os donos de automóvel sentem medo e são vítimas da violência em nosso país. Mas será que o Amarildo, a Claudia, o DG, a Maria Eduarda e tantos outros também não sentiram medo antes de serem desaparecidos, arrastados ou alvejados pelas probabilidades? Será que essa gente – que não tem o perfil dos entrevistados padrão-Globo-de-qualidade – não merece a empatia de quem está diante da tevê? Não merece uma vida blindada contra a incerteza de voltar para casa?

E-mails (e zaps e torpedos e cartas e sinais de fumaça) para a redação chefiada por William Bonner.

domingo, 9 de abril de 2017

Onde mulheres caratecas nocauteiam marmanjos atrevidos todos os dias

Poucas coisas na vida me fizeram sentir tanta vergonha dos meus colegas de gênero quanto os movimentos #MachosUnidos e #ForçaZéMayer, que surgiram nas redes sociais em solidariedade ao ator que reconheceu ter assediado a figurinista Susllen Tonani. Uma dessas coisas certamente foi o diálogo que me vi intimado a travar – e do qual reproduzo os melhores piores momentos ­– com um amigo de um amigo de um amigo no Facebook, dias atrás.

Só peço que não tirem as crianças da sala – que elas têm de ser educadas desde o útero sobre a machocracia que ainda submete as mulheres a todo tipo de violência.

“Chega de mimimi. Que as mulheres conquistem seu espaço, mas que isso não transforme todos os homens em estupradores e agressores.”

Deixe que eu lhe explique a frase “Os homens são machistas”: essa generalização é só uma forma de mostrar que o machismo não é exceção, algo que um ou outro amiguinho nosso pratica de vez em quando (tão raramente quanto lavar a louça ou ir à reunião na escola); serve apenas para reforçar a ideia de que a supremacia masculina é regra, tem caráter histórico e se estrutura numa relação de desigualdade socialmente aceita e tão naturalizada, que usuários de cueca (como nós) muitas vezes nem percebem. Mas pode dormir tranquilo e com a luz apagada – que o feminismo é capaz de ver os cinquenta tons de cinza (e vermelho e amarelo e azul e verde) que você não enxerga nem numa reles sentença.

“Esses ismos me preocupam. A sociedade está indo na direção oposta ao ideal de igualdade. O que falta as mulheres conquistarem?”

Quer que eu desenhe? Que tal igualdade salarial? Em média, elas recebem 25,6% menos do que os homens, ainda que desempenhem as mesmas funções e tenham a mesma formação educacional. Que tal uma divisão justa da jornada de trabalho? Elas costumam trabalhar 7,5 horas a mais por semana, já que assumem a maior parte dos afazeres domésticos. Que tal mais representatividade? Dê uma olhada no Congresso Nacional, nas assembleias legislativas, nas câmaras municipais: as mulheres mal ocupam 10% das cadeiras. Nossos números são inferiores (cuidado para não desfalecer) aos do Oriente Médio, que tem uma taxa de participação feminina de 16%.

“Cadê a delegacia para tratar homens agredidos por esposas? Quais os direitos que nós temos que nos protegem dos ataques diários que sofremos por parte das mulheres?”

Suas reivindicações de macho-alvo fazem parecer 1) que maridos, namorados, peguetes e afins são regularmente submetidos a maus-tratos pela vil ditadura do matriarcado e 2) que uma delegacia só para mulheres é um privilégio. Não é. Estamos num país em que, a cada onze minutos, uma mulher sofre algum tipo de violência. Mulheres são agredidas e assassinadas por serem mulheres (assim como homossexuais são agredidos e assassinados por serem homossexuais). Homens não são agredidos e assassinados por serem homens (assim como héteros não são agredidos e assassinados por serem héteros). Homens podem ser agredidos e assassinados por serem negros, mas aí já é um outro crime (chama racismo, ouviu falar?). Vou lhe contar uma historinha que ilustra bem a sociedade em que vivemos: certa vez, perguntei a um grupo relativamente grande de pessoas quem ali tinha medo de pegar um táxi sozinho à noite. Só as mulheres levantaram a mão.

“O que eu sei é que elas têm dezenas de defensores porque são vistas como sexo frágil. Tenho uma amiga que é taxista e costuma viajar na madrugada, de um estado para o outro, com desconhecidos. Ela faz musculação, é faixa preta em caratê, treinou jiu-jitsu e já nocauteou marmanjo atrevido que se meteu a besta com ela. Não teme bandido.”

(Eu que fui às cordas depois dessa. Como já era tarde, só tive forças para balbuciar uma derradeira resposta, antes de me desconectar e correr para o travesseiro:)

Ainda hei de conhecer esse recanto exótico do nosso Brasil – onde mulheres caratecas nocauteiam marmanjos “atrevidos” todos os dias. Fica em alguma esquina do Projac?

domingo, 2 de abril de 2017

Feitiço do tempo

Vai parecer estranho o que vou falar, mas: se você ainda não assistiu ao novo A Bela e a Fera, pare já a leitura, que vai ter muito spoiler. “Ah, mas eu vi o desenho quando era criança”, você dirá. Eu também: umas noventa e seis vezes. E mesmo assim, acredite, saí do cinema surpreso com o remake estrelado por Emma Watson.

Dirigido por Bill Condon, o filme até lembra uma versão estendida da animação de vinte e tantos anos atrás. Estão lá os mesmos personagens, a mesma história de amor, os mesmos números musicais (“Be our guest”, ufa, faz jus ao original), às vezes os mesmos diálogos e os mesmos movimentos de câmera – com as adaptações necessárias a um longa em live-action.

Verdade que Bela (Watson) agora não é só a mocinha apaixonada por livros, mas também a inventora da máquina de lavar roupa e uma professora disposta a doutrinar menores ao lhes ensinar o subversivo ato da leitura. Outra verdade é que a Fera (Dan Stevens) agora tem uma canção para chamar de sua (“Evermore”) e uivar à vontade, feito certo mascarado que vive a quilômetros dali, sob um teatro em Paris.

Com exceções como essas, continua então tudo igual naquela aldeia? Quase. O roteiro, escrito por Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos, não está na mesma paz.

Embora visualmente seja uma reimaginação pouco ousada, esse A Bela e a Fera torna a narrativa original mais complexa e, portanto, mais instigante ao incluir Villeneuve – o vilarejo em que moram Bela e seu pai, Maurice (Kevin Kline) – no feitiço que transforma o príncipe em monstro, joga seu castelo num permanente inverno e reduz seus criados a móveis e utensílios domésticos.

Não é merchan social sobre Alzheimer o senhorzinho que, logo nos minutos iniciais, devolve a Bela um “acredito que sim, só não lembro o quê”, ao ser indagado se perdeu algo. Não é sinal (apenas) de desinteresse dos locais pelas letras que a única bibliotecazinha da cidade tenha sempre os mesmos títulos na prateleira (isso já acontecia no filme dos anos noventa, mas aqui o fato de o lugar aparentemente jamais renovar sua coleção ganha significado extra). Não é mero déjà vu a impressão de já-estive-aqui tida por alguns moradores de Villeneuve ao invadirem o palácio da Fera.

O roteiro é hábil ao espalhar pistas de que a vila segue bela-adormecida num looping temporal (enquanto caem as pétalas da rosa mágica e permanece a contagem regressiva para o encanto se tornar irreversível). Mais que hábil: é brilhante, ao extrair de elementos que já existiam no desenho – como a canção que sublinhava a provincianice do interior – a matéria-prima para transcender a metáfora do lugarejo-parado-no-tempo, onde os habitantes resistem a mudanças.

Afora Bela e Maurice, que vieram de Paris, estão todos ali condenados a viver “every day like the one before”, e comer todo dia “the same old bread” que o padeiro tem para vender.

Aliada a esse roteiro que expande e ressignifica conceitos da obra original, está a direção cuidadosa de Condon. Ela se destaca na recriação das coreografias com dançarinos de carne e osso (o que já é um baita mérito, por concorrer com as de uma animação, em que qualquer pirueta é possível) e no carinho com que trata, por exemplo, o famoso vestido amarelo – revelado aos poucos, numa reverência ao ícone cinematográfico que se tornou, como o chapéu do Indiana Jones ou a capa do Superman. Outra mostra de apuro é a breve cena em que o Maestro Cadenza (Stanley Tucci) aparece após o fim da maldição: repare em seu sorriso com janelinhas, resultado do uso de algumas teclas como projéteis momentos antes, quando ainda era um cravo e combatia os invasores do castelo.

Tanto esmero com a fantasia não quer dizer, no entanto, desatenção com a realidade. É evidente (e saudável) o esforço da Disney de salpicar o elenco com minorias, como Audra McDonald (a cantora Madame Garderobe) e Ray Fearon (o capelão Père Robert), ambos negros em papéis “comuns”, e não nos tradicionalmente associados à sua cor, como os de empregados. Espaço relevante na telona, porém, quem ganha mesmo é Le Fou (Josh Gad), que agora sai completamente do armário e até arrisca um versinho crítico ao seu amado Gaston (“But I fear the wrong monster’s released”), mostrando que não é desumano como o vilão interpretado por Luke Evans.

Não posso deixar de comentar isso antes de terminar: houve quem sugerisse boicote ao filme por causa da presença de um personagem obviamente gay. Hashtag cansaço. Cá entre nós, se até uma obra que tem o público infantil como um de seus alvos já admite a homossexualidade e sua pessoa não, talvez você seja um daqueles camponeses fadados ao Dia da Marmota. Quantas rosas ainda vão precisar perder as pétalas até que seus neurônios saiam desse looping temporal, ô fera?