É
triste e revoltante constatar o quanto a grande mídia brasileira – a cada dia
menos constrangida em se mostrar sócia de quem só pensa em manter privilégios e
restringir direitos – se esforça para desinformar a população. Chega a ser
nocivo, para a saúde de olhos e ouvidos minimamente treinados contra a
manipulação, conviver com a desfaçatez de certos veículos da imprensa.

Entre
tais avanços, estava o fato de o número de crianças na escola ter praticamente
dobrado. O fato de o contingente de brasileiros entre 25 e 34 anos com ensino
médio completo ter saltado de 26 para 61%. O fato de o prolongamento da vida
estudantil ter resultado em trabalhadores com maior renda – porque mais
escolarizados – e em índices menores de gravidez na adolescência e mortalidade
infantil. O fato de, entre jovens de 15 a 17 anos, a simples expansão de
matrículas ter diminuído as taxas de homicídio.
Embora
admitisse que a qualidade do ensino não melhorou na mesma proporção e que
poderia ter sido feito muito mais com o dinheiro investido, o autor fazia
questão de ressaltar, em sua conclusão, que os passos dados até aqui eram
suficientemente importantes para não considerarmos inútil o esforço de se
destinar um percentual maior da receita para a educação.
Infelizmente,
no entanto, só chegaria a essa conclusão quem clicasse na chamada exibida na
primeira página do jornal, que curiosamente fugia E MUITO da proposta do texto:
“Gastos e resultados – aumento do investimento público em educação não melhorou
qualidade de ensino”. Os incautos que parassem no título – e eles não são
poucos – certamente teriam o “argumento” necessário para defender em seus
zap-zaps o tal limite de gastos proposto pelo governo interino.
Não
é a primeira vez que topo com esse tipo de pegadinha. Nem com esse tipo de
pegadinha em relação ao mesmíssimo tema.
Há
alguns meses o jornalista William Waack, em programa na Globonews, diante da notícia
de que o Brasil dava mais do seu PIB para a educação do que países mais ricos –
e, mesmo assim, sofria com a baixa qualidade do ensino –, revirou as célebres
olheiras antes de sugerir um corte urgente de despesas no setor. Mais uma vez,
a informação era mutilada: o apresentador não acrescentou que, em virtude do
imenso número de estudantes brasileiros, nosso gasto com cada um era apenas o
penúltimo numa lista de 34 nações, incluídas aqui outras dez em
desenvolvimento.
Mera
coincidência ou linha editorial? Descuido ou má-fé?
Por
essas e outras (como os recorrentes editoriais que põem a culpa dos déficits
bilionários na Constituição Federal de 1988, que garantiria mais direitos do que o
Estado pode bancar), tendo a acreditar cada vez mais na velha máxima de Darcy
Ribeiro: a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto.