domingo, 20 de abril de 2014

Carta aberta ao Criador

Com todo o respeito, Chefia: bem que o Senhor podia aproveitar o domingo de Páscoa, as famílias reunidas, o clima ensolarado de recomeço e mudança para apertar aquele botão (o reset, fique bem claro) e reiniciar o sistema. Mais ou menos como Vossa Excelência fez quando mandou o dilúvio.

Só que desta vez, Patrão, sem o coxinha do Noé, sem aquela arca ecologicamente incorreta e sem essa de salvar só os casais héteros de cada espécie. Não pega bem. Não agrega valor ao Paraíso. Sugestão: deixe apenas três amebas, para ver se de um ménage nasce coisa melhor que o Homo bolsonaris gentilis – essa criatura que, dizem mas não acredito, foi feita à Sua imagem e semelhança.

Não me entenda mal, Eminência: se peço um replay em slow-motion da maior inundação de todos os tempos – e uma garoa de asteroides junto, só para garantir –, é porque andamos precisando muito de um reboot. Quem sabe com a página outra vez em branco nós, e aí incluo Vossa Senhoria, não escrevamos certo finalmente.

Sem tanta linha torta.

Um mundo sem glúten, sem hora para acordar, sem segundas-feiras, sem celulares nos cinemas, sem livros de autoajuda, sem frases bregas atribuídas a Clarice ou Machado, sem acento grave ou vírgula onde não deve, sem fumantes e bebuns, sem juros, sem tomates superfaturados, sem novelas ruins, sem filmes dublados, sem crise de fígado e dor de cabeça, sem humoristas sem graça, sem reaças, sem filas, sem hora extra e serão, sem guerras, sem canções cafonas para promover a paz, sem bandeirinhas míopes, sem PM de TPM, sem manchetes sensacionalistas, sem bundas de plástico, peitos de plástico, cérebros de plástico, corações de plástico – sem plástico, enfim.

Ah, e o mais importante: sem vergonha de dizer eu te amo durante o expediente.

Mas com vergonha de levar gaita na cueca, com hora de ninar os filhos, com mais sextas de Carnaval, com celulares que toquem valsa, com mais sonhos e pés de valsa, com poesia nos muros (se eles insistirem em existir), com sujeito e predicado vivendo em concordância, com fumantes viciados em cachimbos da paz, com cerveja amanteigada nos botecos, com juras (de amor), com toda a horta em promoção, com novelas que valem a pena ver de novo, com filmes franceses nas periferias, com riso frouxo mesmo depois de um tropeção, com uma horinha a mais de sono, com o Messi no meu time, com policiais sem pimenta, com jornais bem-humorados.

E não nos esqueçamos, Vossa Magnificência, que isto é fundamental: com violinos ao fundo sempre que disserem eu te amo durante o expediente.

Sem mais por ora, me despeço aqui, ó Pai de Todos, Fura-Bolo e Mata-Piolho, desejando-Lhes uma Páscoa trufada de bons intenções e chocolates (sem glúten, lactose e açúcar, cem por cento cacau; que nem divindade da Sua catiguria pode brincar com o colesterol, o Tinhoso disfarçado de gordurinha). Tchau e bença.

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