Não
é por causa do ônibus com ar geladinho, meia dúzia de passageiros e motorista
zen que se pega todos os dias, às sete – sete e dois no máximo –, no ponto perto
de casa. Não é por causa do metrô praticamente londrino, que, com suas infinitas
linhas, transforma qualquer expedição entre a Pavuna e a Barra num passeio
ensolarado do Leme ao Pontal. Não é por causa dos ferry boats (vulgo barcas) que praticam nado sincronizado na Baía de Guanabara ou no Tietê.
Não
é por causa da imensa rede de hospitais e postos de saúde que faz todo paciente
se sentir portador de Alzheimer só por ter esquecido o significado da palavra
fila. Não é por causa das escolas que somam professores bem remunerados, subtraem
indisciplinas e demagogias, multiplicam cidadãos e dividem conhecimento. Não é
por causa da excelência swática das nossas forças de segurança, tropas de elite
abarrotadas de Capitães Nascimentos.
Não
é por causa dos campos de golf verdinhos, verdinhos que revestem o sertão
nordestino como um tapete felpudo, onde famílias inteiras se refestelam nas
horas de folga, quando não estão plantando e colhendo feijão, arroz, milho,
mandioca, até um tubérculo exótico por estas bandas – uma tal de dignidade –,
independentemente da estação.
Não
é por causa das declarações sempre sensatas e das sobrancelhas impecavelmente
benfeitas do ilustre deputado que preside certa comissão de direitos humanos.
Não é por causa dos outros deputados, e senadores, e vereadores – tão ilustres
quanto –, que invariavelmente diminuem o próprio salário, cortam os próprios
benefícios, o próprio auxílio-cueca, ao primeiro sinal de crise econômica nos
Países Baixos.
Não
é por causa das estradas tão macias e cuidadas quanto o gramado importado do
novo Maraca. Não é por causa dos aeroportos tão confortáveis e espaçosos quanto
o playground do Thor na mansão Batista. Não é por causa dos portos tão modernos
e bem equipados quanto o Projac.
Não
é por causa da Copa do Mundo. Muito menos por causa dos Jogos Olímpicos. Quem
em sã consciência protestaria contra a realização de eventos que só têm trazido
orgulho aos brasileiros? (Minto: têm trazido também grandes mamíferos
proboscídeos, da família dos elefantídeos, dotados de longa tromba flexível e forrados
de mármore branco dos mais caros. E-le-gan-tér-ri-mos.)
Não
é por causa da imprensa incansavelmente vigilante que denuncia qualquer tomate
inflacionado onde só pode existir um paraíso tropical, abençoado por Marinhos,
Macedos e Malafaias, bonito por (muito mais que) natureza – e que em fevereiro,
março, abril... ainda tem carnaval.
É
por causa – calaro, óbivio – daqueles vinte centavos a mais
na passagem.
Merreca,
trocado, esmola que é a síntese do nosso apetite ancestral por molho vinagrete
temperado com spray de pimenta. Do nosso desejo freudiano de levar umas cacetadas
de homens fardados montados a cavalo. Da nossa vontade uterina de ser xingado
de vândalo e rebelde sem causa por um Jabor da vida.
(Que, cá entre nós, é a caricatura violenta da
caricatura de um reacionário que a mídia caduca ainda exibe no horário nobre.)