domingo, 17 de fevereiro de 2013

Amor e filmes

Fernanda e eu saímos da sessão de Amor com os corações calados. Levou um tempo pra ela (ou eu, não lembro) dizer o óbvio: que a Emmanuelle Riva não pode perder o Oscar de melhor atriz pra Jennifer Lawrence, a bonitinha mas ordinária do bonitinho mas ordinário O lado bom da vida.

Como de costume, procuramos um café após o cinema. Depois de uns dez minutos examinando o menu, escolhemos o mesmo sanduíche, apenas com pães diferentes: ela, o australiano; eu, a baguete. Ela ainda pediu um chai, e eu, uma média. Nada especial. O bonitinho mas ordinário de sempre. O lado bom da vida.

Até um casal de idosos (bem idosos) sentar na mesa ao lado: ele quase de frente pra mim; ela quase de frente pra Fernanda. Não precisaram do cardápio. Foram direto no pão na chapa, no expresso e no bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Dois garfos, por favor.

Achei esse Lincoln o filme mais cacete da história, ela resmungou. Já estava ficando abafada com tanto gabinete, político e a Sally Field à beira de um ataque de nervos. Não sei por que o presidente não fez aprovarem uma lei que a abolisse da Casa Branca. Ele foi um herói mesmo; merecia estar na nota de cem dólares, não na de cinco.

Gostei do Day-Lewis. O peso de ser o homem mais poderoso do mundo estava na expressão cansada, na voz cansada, no corpo cansado. Que ator.

Prefiro o Jean Valjean, dos Miseráveis. Daria todos os prêmios pra ele.

Boba. Está dizendo isso só pra me provocar. Pensa que eu não sei? Te conheço há cinquenta anos, esqueceu? Os miseráveis é musical bom de ouvir, mas de ver... Muitos closes. Aliás, o diretor não tirava a câmera do rosto dos atores um segundo. Estava ficando abafado com tantos poros e olhares sofridos.

Fernanda e eu mal conseguíamos cuspir um monossílabo. Continuamos quietos, só escutando. Os pães, os expressos e o bolo chegaram.

Meu favorito é o Pi. Só acho uma pena não terem indicado o tigre, o velho lembrou. E o moço que filmou a história do Irã, dos americanos fugindo. Pelo menos o careca gente boa, o avô da Miss Sunshine, o que fez o produtor de Hollywood que ajudou a CIA, ele foi... Adoro aquele sujeito!

Pra mim, o melhor de todos é o Django. Delícia acompanhar aquele crioulo metido a branco explodindo com casa-grande e tudo no final. Há séculos não sentia tanto prazer.

Um gole de silêncio.

No cinema, querido; no cinema.

Também gostei do Jan-go – com “d” mudo, ele continuou (com ar de alívio). Ainda que eu prefira o outro do Tarantino, o Kill, Kill... Aquele em que a menina põe fogo no Hitler e nos outros nazistas dentro do cinema. E o herói marca o vilão com uma suástica na testa. Obra-prima, obra-prima.

Fim da sessão e do lanche. Pagaram a conta e se levantaram. Ele primeiro – pra puxar a cadeira e ajudá-la a ficar de pé. Ela beijou sua mão e os dois deixaram o bistrô de braços dados. Logo se perderam na multidão que lotava os corredores do shopping naquele sábado à tarde.

Fernanda e eu permanecemos em silêncio por mais um tempo, não lembro quanto, mastigando o resto do sanduíche, bebendo o resto da xícara, saboreando o resto da cena – digna de todos os Oscars – a que havíamos acabado de assistir.

Não mais de corações calados, claro.

3 comentários:

  1. Ótimas dicas hein ;D gostei!

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  2. Amour é um filme dilacerante, fiquei extremamente mal. Haneke é um dos meus diretores preferidos, tem um estilo cru e real. Preciso ver Lincoln e Django ainda.

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