domingo, 27 de abril de 2014

Chaleiras

Fernanda é que me alertou: a tinta da chaleira está descascando. Homessa. Não bastassem as manchas de quem estoicamente beija a boca do fogão todos os dias, agora isso. Bateu aquela melancoliazinha. Afinal, estamos juntos desde que saí da casa dos pais; desde a primeira manhã do resto da vida. Seu apitaço ferve a água e o espírito. Só o seu cocoricó é capaz de ressuscitar o zumbi que jaz em mim entre a cama e a cozinha.
 
Só eu mesmo para me apegar a um simples objeto, a um mero utensílio doméstico. Um momento. Só eu mesmo? Não é bem assim. Sei de gente que não só se apegou, como ainda deu nome a aspirador de pó. E por pouco não leva o mascote para uma volta no bairro – para uma social básica com o carrinho de feira da vizinha ou com a magrela recém-reformada do amigo da rua de cima.

Não cheguei a batizar minha chaleira de estimação, mas dei a ela um significado, uma razão quase metafísica de existir – o que é bem mais grave. O que é pior que chegar às vias de fato com a tevê em dia de futebol. É dar brecha para a danada entrar e não sair mais do seu dicionário particular, aquele calhamaço invariavelmente em desordem alfabética, escrito num dialeto que só você decifra (quando decifra), chamado coração.

Atribuir sentido ao que quer que seja – à bola de gude conquistada naquele recreio longemente esmaecido, ao botão que solta do paletó a minutos do sim no altar, ao fusquinha comprado em transpiradíssimas prestações, à poltrona que te ajudou a tomar mil e duas decisões importantes, à moedinha número um, ao chapéu que te acompanhou da primeira à última cruzada, a qualquer pedacinho do seu Krypton, enfim – pode ser tão perigoso quanto nomear aquele vira-lata que insiste em dormir na sua calçada.

Um descuido e você está de quatro (cinco, seis...) por uma cômoda ordinária, com a cara e a voz da Narcisa Tamborindeguy. Sabe de nada, inocente.

Há quem diga que devamos nos desfazer das quinquilharias que acumulamos para dar lugar a novas. Até concordo. Sou um entusiasta do clean e da reciclagem. Mas guardar uma peça ou outra é mais que necessário. Uma hora a memória há de precisar dessas madeleines para continuar respirando. Salvar uma ou outra bugiganga – com a devida higiene, claro – é preservar o museu em que vamos nos transformando desde a primeira chupeta, quando nem sonhávamos com água na chaleira.

Quando nem imaginávamos que mistérios caberiam naquele quentinho amargo de café.

domingo, 20 de abril de 2014

Carta aberta ao Criador

Com todo o respeito, Chefia: bem que o Senhor podia aproveitar o domingo de Páscoa, as famílias reunidas, o clima ensolarado de recomeço e mudança para apertar aquele botão (o reset, fique bem claro) e reiniciar o sistema. Mais ou menos como Vossa Excelência fez quando mandou o dilúvio.

Só que desta vez, Patrão, sem o coxinha do Noé, sem aquela arca ecologicamente incorreta e sem essa de salvar só os casais héteros de cada espécie. Não pega bem. Não agrega valor ao Paraíso. Sugestão: deixe apenas três amebas, para ver se de um ménage nasce coisa melhor que o Homo bolsonaris gentilis – essa criatura que, dizem mas não acredito, foi feita à Sua imagem e semelhança.

Não me entenda mal, Eminência: se peço um replay em slow-motion da maior inundação de todos os tempos – e uma garoa de asteroides junto, só para garantir –, é porque andamos precisando muito de um reboot. Quem sabe com a página outra vez em branco nós, e aí incluo Vossa Senhoria, não escrevamos certo finalmente.

Sem tanta linha torta.

Um mundo sem glúten, sem hora para acordar, sem segundas-feiras, sem celulares nos cinemas, sem livros de autoajuda, sem frases bregas atribuídas a Clarice ou Machado, sem acento grave ou vírgula onde não deve, sem fumantes e bebuns, sem juros, sem tomates superfaturados, sem novelas ruins, sem filmes dublados, sem crise de fígado e dor de cabeça, sem humoristas sem graça, sem reaças, sem filas, sem hora extra e serão, sem guerras, sem canções cafonas para promover a paz, sem bandeirinhas míopes, sem PM de TPM, sem manchetes sensacionalistas, sem bundas de plástico, peitos de plástico, cérebros de plástico, corações de plástico – sem plástico, enfim.

Ah, e o mais importante: sem vergonha de dizer eu te amo durante o expediente.

Mas com vergonha de levar gaita na cueca, com hora de ninar os filhos, com mais sextas de Carnaval, com celulares que toquem valsa, com mais sonhos e pés de valsa, com poesia nos muros (se eles insistirem em existir), com sujeito e predicado vivendo em concordância, com fumantes viciados em cachimbos da paz, com cerveja amanteigada nos botecos, com juras (de amor), com toda a horta em promoção, com novelas que valem a pena ver de novo, com filmes franceses nas periferias, com riso frouxo mesmo depois de um tropeção, com uma horinha a mais de sono, com o Messi no meu time, com policiais sem pimenta, com jornais bem-humorados.

E não nos esqueçamos, Vossa Magnificência, que isto é fundamental: com violinos ao fundo sempre que disserem eu te amo durante o expediente.

Sem mais por ora, me despeço aqui, ó Pai de Todos, Fura-Bolo e Mata-Piolho, desejando-Lhes uma Páscoa trufada de bons intenções e chocolates (sem glúten, lactose e açúcar, cem por cento cacau; que nem divindade da Sua catiguria pode brincar com o colesterol, o Tinhoso disfarçado de gordurinha). Tchau e bença.

domingo, 13 de abril de 2014

Atentado

Aquele pão com manteiga estatelado no piso que a patroa tinha acabado varrer não podia dar em boa coisa. Era sinal amarelo demais. Ainda assim, Seu Aparecido insistiu em sair de casa para ir ao banco retirar a raquítica aposentadoria – prêmio de consolação por séculos de serviços prestados aos ternos e paletós daquela cidade. Não havia sujeito bem vestido na região, a começar por prefeitos e vereadores, que não tivesse passado pelas agulhas e tesouras do alfaiate.

Só que isso não vem ao caso. Nem sei por que estou falando essas coisas. Afinal, o que fez Seu Aparecido virar notícia no país inteiro não foi seu talento com roupas e afins. Ao contrário. Muito ao contrário. Aliás, quem presenciou a cena ao vivo e em cores garante que foi tão ao contrário quanto uma cueca samba-canção – das favoritas do nosso herói – vestida do avesso. Vejamos então.

Mas com as devidas tarjas pretas – para não ferirmos olhos e suscetibilidades.

Como todo início de mês, Seu Aparecido se dirigiu à agência bancária de sempre para sacar seus tostões. Antes, porém, de atravessar a temível porta giratória (estrela dos seus, dos meus, dos nossos pesadelos mais claustrofóbicos) e embrenhar-se no banco, descansou celular e chaves numa conchinha de vidro, sob os narizes farejantes dos seguranças. Bom dia, rapazes – e lá foi ele.

Não, não foi. A bicha-papuda travou.

Culpa de umas moedinhas que esquecera no bolso da camisa. Aqui estão, rapazes – e lá foi ele de novo. Não, não foi. A bicha permanecia tão parada a Avenida Brasil na hora do rush. Ah, as fivelas dos sapatos. Aqui estão, rapazes – e lá foi ele outra vez. Não, não foi. A bicha insistia em sua greve. O cinto, claro. Aqui está, rapazes – e lá foi ele ainda cheio de esperança. Não, não foi. Bicha filha de uma...

Enquanto Seu Aparecido ia perdendo as estribeiras e peças do elegante figurino, os seguranças, do outro lado da porta, se desfaziam em mímicas para tentar acalmá-lo. Por que não destravaram logo a dita-cuja e permitiram sua entrada – afinal, ele era cliente daquele banco desde mil novecentos e dercy gonçalves – é mistério que só um exame detalhado em seus respectivos córtices cerebrais poderá desvendar.

Para deixar tudo mais tenso, uma fila de clientes e curiosos foi se formando atrás do nosso personagem. Que tirou o terno, a camisa, as meias, a calça. Sobrou até para a peruca. Não adiantou nada. A bicha nem se mexia. Continuava tão travada quanto meu Internet Explorer. Beijinho no ombro – ela diria se falasse. A essa altura, já se ouviam gritos a favor de um striptease completo, vaias contra o capitalismo judaico-cristão ocidental e a sirene da polícia.
           
Seu Aparecido não segurou o rojão. Mas resolveu mostrá-lo. Incorporou o go-go boy e arrancou, com requintes de vandalismo, o último adereço que o distinguia dos astros da G. Aqui está, rapazes – e lá foi ele. Sim, ele foi. Ele finalmente foi. Só que direto para o camburão. Estava preso por gravíssimo atentado. Ao pudor? Quis saber uma senhorinha de guarda-chuva em riste, aparentemente indignada com a atitude dos policiais.

Não, madame. À liberdade de expressão e manifestação da porta giratória; ao seu inalienável direito de (não) ir e (não) vir.

domingo, 6 de abril de 2014

Curioso caso

Aconteceu na última sexta. Eu já tinha liberado a turma, apagado o quadro, fechado a mochila e o diário (para quem ainda não sabe, sou professor nas horas de folga), quando uma aluna – treze, catorze anos – me surpreendeu com um tchau até então inédito na minha biografia, de me deixar sem uma sílaba de saliva na boca: “Até segunda, coroa”.

Passados o susto, o espelho e uma breve recontagem dos cabelos brancos – que ainda não chegaram aos três dígitos graças ao infalível tratamento arranque-o-centésimo-toda-semana –, rumei para casa. A pé mesmo, já que não moro longe da escola. Além do mais, naquele dia a caminhada me ajudaria a digerir a palavrita aparentemente fora do lugar, certamente fora do tempo.

Meia hora andando até o meu cafofo, distraído com o vaivém de calçadas e nuvens, eu já estava praticamente recuperado do trauma. Foi aí que aconteceu de novo. Ao parar diante do elevador, a poucos andares de desamarrar os sapatos, uma menininha – três, quatro anos –, acompanhada provavelmente da babá, apontou para mim e gritou sem o menor pudor de garganta: “Olha o garotinho querendo subir”.

Só tive segundo de lhe devolver um sorriso off-white. O elevador surgiu e eu me enfiei nele assustado. Muito assustado. Em coisa de minutos eu tinha ido de T-rex com artrite – aquele professor pré-histórico que insiste que os alunos desliguem os celulares e as “conversas paralelas” para se concentrarem em tempos e modos verbais – a figurante do Xuxa só para baixinhos – aquele guri da novíssima geração que não se cansa de cantarolar que cinco patinhos foram passear.

É interessante o quanto podemos parecer – para quem não nos conhece de perto, para quem só nos vê de longe – (apenas) a múmia de gazes vencidas ou (somente) o smartphone mais moderno de todos os tempos da última semana. Para a aluna, eu cheirava a papiro; para a menininha, a fralda. Mal sabia a primeira, adolescentemente preconceituosa, que o coroa também curtia Face, Twitter e conversa fiada; a segunda, ainda na época das inocências, não tinha ideia do tio ranzinza que o garotinho podia ser.

Certa vez li numa dessas clarices da vida que, dependendo do papel que representamos – professor, mãe, filho, irmã, amigo, esposa, patrão, funcionária, protagonista, coadjuvante, torcedor, poeta, turista – e da plateia que nos assiste, podemos assumir vários personagens no mesmo dia, às vezes na mesma hora, quiçá entre um olhar e outro; podemos ter tantas e todas as idades com as quais até o camaleão mais Johnny Depp jamais sonhou.

Podemos ser o quarentão que vira moleque sempre que bate uma bolinha; o meninote que, mais maduro que os pais, revela que os quer ver felizes, estejam casados ou não; o casal em bodas de prata que volta à adolescência ao ouvir aquela canção do Roupa Nova; os adolescentes que se tornam matusaléns em coma ao passarem as férias inteeeeeiras no sofá, diante de um stupidphone; os vovôs e vovós que rejuvenescem meio século a cada excursão com os amigos.

Pelo sim pelo não, assim que pus os pés descalços em casa, corri para o espelho. Ufa: era eu mesmo ali do outro lado, e não um joelho com nariz de feto. É que por um instante meus neurônios saíram da caixinha e quase me convenceram de que eu sofria os sintomas finais da síndrome de Benjamin Button.